A Vida (1699 - 1750)

Sebastião José de Carvalho e Melo nasceu em Lisboa a 13 de Maio de 1699. Oriundo de uma antiga família de fidalgos (embora de remota implantação), deve o nome a seu avô e padrinho de baptismo Sebastião de Carvalho e Melo. O Marquês era filho de Manuel de Carvalho e Ataíde, Capitão-tenente do Mar e da Guerra, e de D. Teresa Luísa de Mendonça.

Frequentou o Colégio das Ordens Militares, na Universidade de Coimbra, tendo, no entanto, acabado por acolher-se à protecção de parentes seus em Lisboa, onde um tio - Paulo de Carvalho - ocupava uma posição destacada na vida pública do tempo. Pombal sempre tentou, aliás, encontrar no prestígio do tio as compensações de ordem social contra a crítica palaciana, que o olhava com desconfiança por ser oriundo da pequena nobreza. Com ele se quebrou a linha de três gerações de magistrados, dado que nunca chegou a obter nenhum grau académico. Dedicou-se, depois, à carreira militar como capitão de infantaria e de cavalos das ordenanças dos familiares da cidade de Lisboa.

Do casamento dos pais, em 1698, surgiu abundante descendência. Para além de Carvalho e Melo, os dois filhos do casal mais referidos pelos autores são Francisco Xavier de Mendonça Furtado, que viria a ser governador do Grão-Pará e Maranhão e Secretário de Estado e o doutor Paulo António de Carvalho e Mendonça, que viria a ser Cónego da Sé Patriarcal e membro influente do Santo Ofício. No entanto, existem autores que elevam esta descendência para um número de doze filhos.

A morte de Manuel de Carvalho e Ataíde, seu pai, a 21 de Março de 1720, marcou o início de um período extremamente difícil para Carvalho e Melo. Na frágil dependência de uma viúva de trinta e seis anos, com muito poucos recursos, ficavam ainda oito filhos, dos quais cinco eram menores. Paulo de Carvalho tornava-se, então, o principal sustentáculo da cunhada, dos sobrinhos e da própria mãe, visto que seu pai falecera também no ano anterior.

Em 1724, Carvalho e Melo retira-se de Lisboa para uma Quinta da família no «campo de Coimbra». O principal motivo desta sua atitude radicava no consórcio de sua mãe com o doutor Francisco Luís da Cunha de Ataíde, que, no entanto, foi aceite pelo seu tio Paulo de Carvalho. Num escrito de 1756, refere-se que Carvalho e Melo forçara a mãe a viver de esmolas, o que contribuiu para que D. Teresa Luísa contraísse a nova união, e que, assim que esta ocorreu, o filho se vestiu de luto, fechou as janelas da casa e mandou repicar a defuntos os sinos da Igreja das Mercês, anunciando a todos a morte de sua mãe. Esta notícia deixa, no entanto, transparecer um marcado anti-pombalismo, visto que existem referências de que, mais tarde, Pombal viria a ter boas relações com o padrasto. Há, inclusivamente, autores que justificam a sua partida para o «campo de Coimbra» como uma forma de encontrar na vida agrícola as compensações materiais para conseguir salvar dos credores o património familiar que o avô deixara. Este abandono da capital por Carvalho e Melo estendeu-se de 1724 a 1731.

A 23 de Janeiro de 1723, Pombal casa com D. Teresa de Noronha e Bourbon Mendonça e Almada, com quem vivera em Lisboa antes do seu «exílio campestre» durante mais de um ano. Para um fidalgo arruinado como era Carvalho e Melo, D. Teresa constituía um óptimo partido, dado que, apesar de ser viúva, dispunha de valimento cortesão por ser dama da Rainha D. Maria Ana de Áustria, para além de possuir também uma boa fortuna. Perante a oposição dos familiares da noiva ao casamento, Carvalho e Melo não hesitou em raptá-la, casando com ela por procuração. Do consórcio não resultou qualquer descendência. Catorze anos mais tarde, D. Teresa adoeceu gravemente, sendo recolhida no mosteiro de Santos.

Mais tarde, graças ao apoio do tio cónego, que introduz Carvalho e Melo no cenáculo do Conde da Ericeira, este consegue, finalmente, entrar na Academia Real de História Portuguesa.

A sua experiência diplomática marca decisivamente este período , levando-o, como embaixador do «Rei Magnânimo», às cortes britânica ( de 1738 a 1744 ) e austríaca ( de 1745 a 1749 ). Apesar de, em termos diplomáticos, ter obtido um sucesso nulo, esta experiência revelou-se fundamental para a formação intelectual e política do futuro estadista.

A missão em Londres (1738-1744)

Carvalho e Melo inicia a sua carreira diplomática em 1738, como enviado a Londres . Com a saída de Marco António de Azevedo Coutinho do posto de Londres, Sebastião Carvalho e Melo, seu primo, é, então, recomendado pelo mesmo para o cargo. No entanto, foi apenas em Setembro de 1738 que se deu, de facto, a sua nomeação, já preparada desde 1737, mas como enviado extraordinário e não ainda como embaixador.

A falta de dinheiro obrigou Carvalho e Melo a recorrer ao Marquês das Minas antes da sua partida para Londres, pois o dinheiro era-lhe necessário para a organização de assuntos de ordem patrimonial, assim como para a compra de móveis e de vestuário, que lhe era, por assim dizer, exigida pela importante missão que este tinha a seu cargo.

A sua missão era conseguir fazer com que a Inglaterra autorizasse o envio de trigo para Portugal, pondo fim à proibição estabelecida pelo governo de Jorge II. Desejava-se que a Inglaterra facilitasse a aquisição de cereais, pois Portugal confrontava-se com uma enorme carência deste bem.

A 8 de Outubro, Carvalho e Melo parte de Lisboa, desembarcando em Londres no dia 19, onde o seu primo e antecessor o aguardava. O contacto do futuro Marquês de Pombal com Azevedo Coutinho ser-lhe-ia essencial para a missão que lhe era confiada.

A primeira questão a resolver prendia-se com um pedido de auxílio de D. João V a Jorge II relativo à presença portuguesa na Índia. O apoio dos ingleses era, assim, solicitado para a reconquista da ilha Salcete, que, em Abril de 1737, tinha sido ocupada pelos Maratas do Industão. Apesar de não ter conseguido alcançar os objectivos que pretendia relativamente a esta negociação, Pombal prosseguiu com a sua missão.

A nível comercial, a aliança entre Portugal e a Inglaterra não era mútua, especialmente em termos de vantagens. Os comerciantes lusos não gozavam, em Inglaterra, dos mesmos benefícios de que os ingleses beneficiavam nos portos e alfândegas de Portugal. As cargas portuguesas apenas poderiam seguir para Londres em navios ingleses, o que contribuía para o encarecimento dos produtos. Por outro lado, a guerra de sucessão da Áustria fez a Inglaterra entrar em conflito aberto com a Espanha, pelo que muitos barcos espanhóis eram vítimas dos ataques ingleses em águas portuguesas, criando um clima que em muito lesava o nosso país. Um dos principais objectivos da acção de Pombal como enviado português a Londres, foi, perante esta situação, tentar diminuir o peso da influência de Inglaterra sobre Portugal.

No entanto, apesar de nutrir pelos ingleses uma certa antipatia, Carvalho e Melo admirava bastante o carácter deste povo. A sua estadia em Londres permitiu-lhe instruir-se, por vontade própria, através de contactos políticos e de algumas leituras, que serviram de complemento para a sua formação. Parte do seu vencimento foi, aliás, aplicado na compra de livros e na criação da sua própria biblioteca.

O ambiente londrino não era, apesar disso, do agrado de Pombal, que se queixava frequentemente de se encontrar doente. Mas, o sentimento de falhanço na sua missão também o atormentava, pois as divergências relativas ao comércio entre as duas nações continuavam. Em 1743, Carvalho e Melo pede, à Secretaria de Estado, autorização para voltar a Lisboa, alegando encontrar-se doente. A 21 de Dezembro de 1743 dá-se, por fim, o seu regresso à capital.

A enviatura inglesa permitiu ao Marquês de Pombal, não só tomar conhecimento das doutrinas políticas e económicas então predominantes nos principais estados europeus, como também aperceber-se dos fundamentos da relação de dominação económica que a Inglaterra mantinha com Portugal.

A missão em Viena de Áustria (1745-1749)

Em 1743, coroa austríaca e o Papado encontravam-se numa situação de conflito devido às promessas feitas pelo Papa Bento XIV ao imperador Carlos VI e, posteriormente, a sua filha Maria Teresa, de elevar ao cardinalato o Monsenhor Mário Mellini. Pelo facto de tal promessa não ter sido cumprida, tanto a imperatriz como seu marido Francisco Estevão, grão-duque da Toscania e, mais tarde, rei da Hungria, tomaram essa falta como uma ofensa . Em consequência do prestígio europeu de D.João V, Portugal foi escolhido, pelo pontífice, como medianeiro deste conflito. Em 1744, a coroa austríaca aceita a mediação de Portugal, facto este para o qual muito contribuiu a colaboração do padre Manuel Pereira Sampaio, que era ministro de Portugal em Roma. Para se encarregar desta missão, mais uma vez surge o nome de Sebastião José de Carvalho e Melo, ao que parece, por influência ou de Marco António de Azevedo Coutinho ou do padre João Baptista Carbonne, confessor do monarca. A 22 de Agosto, o futuro Marquês de Pombal é chamado ao Paço, onde toma conhecimento da missão que lhe seria confiada.

A 14 de Setembro, Carvalho e Melo recebe instruções para levar cartas régias ao imperador e à rainha da Hungria, recebendo ajuda monetária da coroa para as despesas de viagem.

A 8 de Setembro de 1744, Pombal parte para Viena, passando antes ainda por Londres, de modo a informar Jorge II da sua missão na Áustria, onde chega apenas no princípio de Julho. Pereira de Sampaio já lhe tinha, inclusivamente, enviado uma carta em que se mostrava bastante impaciente devido à sua demora. Em Lisboa, Pereira Sampaio levanta, então, algumas insinuações acerca de Carvalho e Melo, advindo daqui o futuro conflito entre os dois diplomatas.

Depressa a actuação de Pombal se acaba por tornar mais política do que diplomática. Em 1746, o Papado acaba por atribuir a púrpura a Monsenhor Mellini, o que foi suficiente para terminar com o conflito. Pereira Sampaio deveria, por sua vez, transmitir instruções para Viena, mas, em vez disso, aproveitou para desacreditar os dons de negociador de Carvalho e Melo junto da coroa portuguesa. Na primeira metade de 1746, o diplomata recebia, sem compreender qual o motivo, sucessivas repreensões do monarca devido a esta insistência de Pereira Sampaio em fazê-lo ser desacreditado.

A 18 de Dezembro, Carvalho e Melo casa, em Viena, com D.Maria Leonor Ernestina Eva Josefa, condessa de Daun. Este casamento trouxe-lhe a promoção social que tanta falta lhe fazia, abrindo-lhe as portas da alta sociedade de Viena. Deste casamento surgiram cinco filhas e dois filhos, no espaço de dez anos. Já nesta época, Pombal não se encontrava de boa saúde, o que transparece, inclusivamente, nas suas cartas de Viena para o padre Manuel de Azevedo. Em Maio de 1748, afirmando que tinha corrido o risco de ficar cego, Carvalho e Melo expressava já o seu desejo de regressar a Portugal. A 31 de Maio de 1749, D.João V solicitou, finalmente, que este desse como acabada a sua Enviatura. A 3 de Setembro, o diplomata parte de Viena em direcção a Lisboa, onde chega apenas pouco antes do Natal.

A experiência diplomática de Carvalho e Melo na Áustria contribuiu, sobretudo, para a formação do seu ideário político, na medida em que lhe permitiu observar directamente um regime político extremamente marcado pelo absolutismo iluminado.

A sua permanência de quase onze anos no estrangeiro deu-lhe, por outro lado, a oportunidade de tomar consciência do desfazamento e do atraso do seu país a nível económico, social e ideológico relativamente a outros países europeus.

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