Efeitos do Terramoto

Quanto ao número de vítimas do terramoto, os testemunhos divergem: alguns elevam-no a trinta ou quarenta mil, enquanto outros, como é o caso de Moreira de Mendonça, uma testemunha presencial do sucedido que estudou os estragos da catástrofe, calculam-no em cerca de dez mil.

Para além de cerca de dez mil casas particulares, foram inúmeros os edifícios atingidos, entre eles o Palácio Real da Ribeira; a Corte Real; o Palácio Real das Alcáçovas; o Castelo de S.Jorge; a Casa da Relação e o Arquivo da Torre do Tombo (então situados no Castelo); os Conventos de S.Francisco, do Carmo, da Trindade; os Conventos de freiras da Anunciada, de Sant'Ana, de Santa Mónica; as igrejas dos Mártires, do Sacramento, das Chagas, de Santo André de Alfama, de S.Bartolomeu, de Santo António da Sé, de S.Julião, de S.Nicolau, de S.Vicente de Fora, entre muitos outros.

Soterradas ou reduzidas a cinzas ficaram, também, inúmeras preciosidades artísticas e literárias, como foi o caso da Biblioteca do Paço da Ribeira, que D.João V enriquecera consideravelmente com livros estrangeiros e manuscritos.

É sabido que, em Portugal, a Estremadura foi particularmente atingida pelo terramoto numa área que cobriu a zona da costa até Peniche, Leiria, Alcobaça e Ourém. Santarém e Benavente, assim como a foz do Sado, num espaço situado entre Setúbal e Sines, foram também afectadas. Torres Novas, Alenquer, Cascais, Alcácer do Sal e Grândola chegaram mesmo a registar os graus de intensidade X e IX. Também o Algarve e o Alentejo foram atingidos pelo «megassismo», que nesta última região registou um grau de intensidade VIII. No Centro e no Norte do país, em locais como Coimbra, Cantanhede ou Aveiro, as consequências do terramoto foram pouco relevantes, havendo inclusivamente algumas terras que nem sequer foram afectadas. Apesar de tudo isto, tão violento foi o terramoto em Lisboa, que a sua lembrança quase apaga os efeitos da destruição causada noutras áreas do país.

Contudo, não se confinaram ao Reino os efeitos do «megassismo», que chegou mesmo a fazer-se sentir em Marrocos. A Andaluzia, nomeadamente Cádis, Sevilha, Huelva e Córdova, assim como Olivença, Cória, Madrid e o Escorial foram, também, atingidos pelo terramoto.

Porém, na época, agia-se como se Lisboa fosse o único palco da tragédia. Tanto a Gazeta de Lisboa, como os correios expressos, a via diplomática ou a via comercial se encarregaram de difundir a notícia pelas cortes europeias. No estrangeiro, a notícia da catástrofe causou uma profunda impressão. A literatura da época reflecte, inclusivamente, o horror inspirado pelo terramoto e as manifestações de simpatia e piedade humana que este despertou. A capital passou a ser vista como um «teatro de ruínas», o que suscitava, quer a compaixão, quer o auxílio dos outros povos.

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