Os Jesuítas no governo pombalino

O Governo pombalino ficou, fundamentalmente, marcado pelo seu êxito na reconstrução da cidade lisboeta, mas também pela violência que então foi canalizada contra a ordem Jesuíta. Existia entre estes dois pólos um ódio e uma rivalidade que se tornava cada vez mais intensa. A questão entre o Ministro e os jesuítas teve início na prolongada luta entre colonos e missionários da «Companhia de Jesus» pela posse da Índia. Os colonos tratavam os índios como animais, com muita crueldade, obrigando-os a trabalhos árduos. Contra este tratamento, manifestaram-se os jesuítas que, para defender a posição índia, se colocaram contra os colonos e o governo. A ordem, visando uma maior aproximação relativamente àquele povo, dedica-se, então, à aprendizagem do seu idioma, o que lhe permitiu, mais tarde, implementar gradualmente a sua política, isto é, cristianizá-los. O poder jesuíta entre a comunidade índia cresce, assim como a sua influência e ambição. Os princípios que moviam os missionários são completamente alterados, passando estes a ter, como objectivo, o alcance de poder e riqueza. Os jesuítas vão-se, também, aproveitando progressivamente da ingenuidade dos índios, começando a explorá-los. Entre colonos brasileiros e padres, começam a estabelecer-se conflitos motivados por diferentes interesses: de um lado, os interesses da comunidade religiosa, que colocava fortes barreiras às ambições particulares dos colonos negociantes; do outro, os interesses de uma burguesia industrial e comercial que se formara nas terras americanas e aspirava pela liberdade de tráfico ou por uma outra espécie de monopólio que a beneficiasse a si e ao comércio em geral.

Tempos depois, o governo português põe a cargo dos missionários a fundação de mais missões em território brasileiro. No entanto, ao aperceber-se do crescimento do poder e da influência que os missionários detinham no Brasil, o Ministro, em Maio de 1757, publica no Grão-Pará novas leis que fixavam a extinção das missões e a liberdade dos índios no Brasil. Esta nova legislação desagradou à ordem Jesuíta, pois esta perdia, assim, muito do poder e da influência que, até aí, tinha exercido no território, passando este a ser directamente administrado por funcionários nomeados pelo governador e a ele subordinados. Com esta lei, os jesuítas passaram a poder exercer apenas a função de párocos. Não contentes com as leis publicadas, porque se julgavam no direito de administrar os negócios, devido aos enormes esforços por eles efectuados no sentido da colonização, os jesuítas dão origem a confrontos com os funcionários nomeados pelo governador nas diferentes povoações. "Não aceitaram os padres a subalterna posição e, ou abriram conflito com as novas autoridades, ou com estrépito abandonaram igrejas e presbitérios, levando consigo as imagens, alfaias e muitos objectos, que pretendiam disputar à posse do Estado. Alguns queimavam na praça pública o que não podiam transportar" (Azevedo, J. Lúcio de, O Marquês de Pombal e a sua época, 2ªedição, Lisboa, Clássica editora, 1990, p. 161).

Quando a notícia dos conflitos no Brasil chegou a Lisboa, os membros da Companhia de Jesus ficaram sobressaltados. O padre José Moreira tentou, então, falar com o rei, embora este se tenha recusado a recebê-lo. Algum tempo depois, Sua Majestade ouve os ofícios em que o governador de Pará-Maranhão relata a atitude dos missionários face aos decretos. Insatisfeito com os resultados, ordena despedimentos a todos os padres inacianos e obriga-os a sair do Paço. A partir daqui, os inimigos do regime aumentam consideravelmente. Os opositores à política de Pombal tentam, frequentemente, mas em vão, «arrancar» o Marquês do poder. Porém, este livra-se astutamente dos seus inimigos por três vias: morte, desterro e prisão. Desanimados com a impossível queda do Ministro do poder, os descontentes com o regime chegam à conclusão de que a única forma de conseguir essa tão desejada queda seria a morte do rei. "Os inimigos do Ministro passam a ser também do Rei." (Peres, Damião, História de Portugal, Barcelos, Portucalense Editora, vol. VI).

A 3 de Setembro de 1758, ocorre um atentado contra o rei, o qual agrava ainda mais a situação relativa à ordem Jesuíta, que passa a ser acusada de cooperar com os Távoras e com outros nobres na tentativa de regicídio. Após a execução dos Távoras e dos outros nobres, a «Junta da Inconfidência» reune-se, chegando a um consenso que pudesse permitir a punição dos jesuítas: confiscar todos os bens da Companhia; dissolver as comunidades; enviar religiosos para missionar em África; substituir as escolas públicas e aconselhar os bispos para explicarem em pastorais a culpa dos padres na tentativa de regicídio. Logo após a divulgação destas medidas, sucederam-se pilhagens aos bens jesuítas, em proveito da coroa. Em substituição desta ordem, surge a Ordem Providencial dos Franciscanos, que pela Companhia de Jesus nutria um grande ódio.

Três semanas após a expulsão dos jesuítas do Paço, Sebastião José de Carvalho e Melo ordenou ao seu primo, Francisco de Almada e Mendonça, ministro de Portugal em Roma, que marcasse uma audiência secreta com o Papa Benedito XIV, na qual lhe deveria apresentar todas as queixas respeitantes aos jesuítas. Perante as acusações apontadas, o Papado pediu, então, a D.José que fosse clemente com os jesuítas em questão. Em resposta a este pedido, o governo decretou, a 3 de Setembro de 1759, a expulsão dos membros da companhia residentes em Portugal. Os padres jesuítas foram proscritos do reino e dos domínios do ultramar e ninguém se encontrava autorizado a manter contactos com essas pessoas.

Portugal aliou-se, por sua vez, a outras nações, com o objectivo de destruir por completo o jesuitismo. Nem mesmo a estreita relação do Marquês de Pombal com a Igreja conseguiu impedir que, após muito esforço, violência e injustiça, o Conde de Oeiras conseguisse, finalmente, libertar-se das ameaças que estes representavam para o Reino.

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