A política externa pombalina
A política externa pombalina foi muitíssimo importante para Portugal, dado que lhe permitiu aliar-se a outros países. Neste contexto, pode salientar-se a aliança com a Inglaterra como tendo sido fundamental para a independência portuguesa.
Portugal encontrava-se mergulhando na decadência desde o reinado de D.João V, sendo apenas no reinado de D.José I, que, devido à firmeza do Secretário de Estado, o país consegue sair da situação penosa em que se encontrava. O atraso da recuperação económica ficou a dever-se, sobretudo, à população que se opunha ao regime.
O Marquês de Pombal encarava de forma negativa a relação entre Portugal e Espanha, pois, na sua opinião,o nosso país caíra em decadênca durante o período em que se encontrava sob o domínio espanhol. Entre 1584 e 1626, os pesados tributos impostos por Espanha levaram Portugal a perder grandes quantidades de ouro. Em 1756, sucedeu algo que, potencialmente, reforçaria as relações com a vizinha Espanha - o casamento de D.Luís Bourbon com a princesa do Brasil, herdeira do trono. No entanto, Pombal conseguiu, com toda a sua astúcia, impedir que este se concretizasse, argumentando que o noivo não seria o mais adequado para o casamento. De forma a esclarecer esta situação, D. Joseph Torrero dirigiu-se a Lisboa para pedir a mão da princesa do Brasil em casamento, continuando D.Luís a ser o pretendente. Para a política externa pombalina, esta aliança apresentava duas faces. Por um lado, seria vantajosa para o país, dado que permitiria a consolidação do plano da «força continental», que pretendia destruir a supremacia marítima de Inglaterra, graças a uma aliança dos reis de sangue Bourbon. Com a adesão ao «Pacto da Família», Portugal poderia ver melhorada a sua situação, mas, por outro lado, o país ficaria à mercê de Espanha.
A aliança estabelecida com a Inglaterra trouxe muitos prejuízos a Portugal, mas também lhe salvaguardou as colónias e a independência que tantas nações cobiçaram. Alguns dos acontecimentos de então ilustram o quanto a aliança inglesa foi benéfica para a nação: em 1581, o apoio da rainha Isabel na causa do Prior de Crato; em 1661, a renovação do tratado, que permitiu salvar a restauração no período da Guerra de Sucessão de Espanha, quando o Reino se viu atacado pelas tropas franco-espanholas. Mediante esta aliança ambas as nações lucravam: Portugal via-se livre da ameaça militar que lhe «espreitava» do continente e a Inglaterra desfrutava do forte apoio que recebia nos nossos portos e da economia do Ultramar português. Esta aliança de 1386 foi renovada em 1661, devendo ser encarada como um instrumento de interesse mútuo, pelo que uma ameaça dirigida a Portugal era considerada como uma ameaça à Inglaterra.
Com a intenção de destruir o poderio marítimo da Inglaterra, que devido ao seu comércio ultramarino aspirava ser a maior potência da Europa, a Espanha e a França assinaram, também, um acordo: a aliança franco-espanhola.
Com o terramoto de 1755, Portugal ficou num estado calamitoso, que o impediu de entrar na guerra que estalou em 1756 entre a Grã-Bretanha e a Prússia, de um lado, e a Áustria, a França e a Rússia, do outro, mantendo-se neutro. Logo a seguir ao terramoto, foram tomadas importantes medidas no sector da defesa militar e do exército. Porém, este campo ainda não estava preparado para enfrentar uma guerra, pelo que, partir de 1756, as preocupações com este sector redobraram.
Três anos mais tarde, em 1759, o embaixador francês, Conde de Merle, vem a Lisboa com a finalidade de assinar com Portugal um Tratado do Comércio.
Por volta desta data, dá-se o incidente naval em frente à Baía de Lagos, que consistiu na violação de uma esquadra inglesa nas águas portuguesas, com o objectivo de derrotar sete naus francesas. Muitos dos sobreviventes fugiram da lancha para procurar abrigo no Algarve, mas a tropa inglesa, a comando do almirante Boscawen, assassinou a maioria. A cidade de Lagos rapidamente se transformou num abrigo para os soldados feridos. Perante este acolhimento, a França agradece, mas pede também justificações pela violação inglesa face à neutralidade de Portugal. A nação lusa protestou, por sua vez, em Inglaterra pelo agravo cometido. O embaixador francês pressiona, então, o governo português, apresentando-lhe queixas excessivas contra a Inglaterra, mas, ao ver que estas não eram atendidas, a 23 de Agosto de 1760 , abandona Lisboa.
O «Pacto da Família», que objectivava a reunião dos reis de sangue Bourbon na mesma aliança contra o povo britânico vinha sendo preparado. A 15 de Agosto, o pacto é assinado e, a 10 de Fevereiro de 1762, Portugal é convidado a integrar-se nessa união. França e Espanha pretendiam libertar Portugal da tutela inglesa, denunciando os ganhos que o nosso país teria em fundar no equilíbrio continental a sua política externa. Contudo, o rei D.José I recusa-se a pactuar com esta aliança e, a 1 de Abril de 1762, dá-se uma ruptura das negociações por parte da França. Como resultado desta recusa, previa-se já a invasão de Portugal, dado que as fronteiras do país se encontravam completamente cercadas por exércitos franco-espanhóis. Carvalho e Melo, apercebendo-se da ameaça que rodeava a pátria lusitana, tomou medidas no sentido de assegurar a sua defesa, até que chegasse o apoio britânico. Essas medidas traduziram-se no conserto das fortalezas, da costa e da raia; na formação de novos batalhões e na compra de aquídeos. Foi, também, pedido aos clérigos que cedessem às tropas militares de Sua Majestade as casas, as adegas, os celeiros e outras dependências que eventualmente viessem a ser necessárias.
No mês de Maio de 1762, ocorrem duas invasões no nordeste transmontano, nas quais se perdem Bragança, Miranda e Chaves. Acalentando a suspeita de um ataque maior, Pombal centra a principal defesa na Beira e no Alto Alentejo, com o objectivo de impedir a entrada do inimigo em Lisboa. No mês seguinte, chega a Portugal o tão esperado apoio britânico: homens, dinheiro e material de guerra. Tempos depois, a 20 de Julho, a França declara oficialmente guerra e a Espanha fá-lo no mês seguinte.
Esta guerra consistiu, essencialmente, em destruir culturas, queimar mantimentos e casas (para o inimigo não ter onde se abrigar) e roubar gado. Ninguém estava satisfeito com a guerra e ambas as partes mostravam o desejo de assinar o armistício, o que acaba mesmo por acontecer a 30 de Novembro de 1762, sendo estabelecida uma trégua entre o Conde de Aranda e o marechal-conde Lippe. À paz definitiva só se viria a chegar a 10 de Fevereiro de 1763, com a assinatura do «Tratado de Versalhes», que colocava Portugal e a Grã-Bretanha de um lado e a Espanha e a França do outro. Este tratado conduziu a Inglaterra a "uma posição de maior isolamento para com Portugal" ( Serrão, Joaquim Veríssimo , O Marquês de Pombal - o Homem, o Diplomata e o Estadista, Lisboa, Edição Câmaras Municipais de Lisboa, Oeiras e Pombal, 1982, p. 121 ).
Em meados de 1765, o país vizinho tenta provocar uma conspiração palaciana contra a aliança inglesa. Alguns eclesiásticos envolvem-se nesta situação, tentando, juntamente com Castela, incitar o fanatismo contra a união luso-britânica. Pombal, sempre atento, consegue atempadamente colocar um fim a essa conspiração, prendendo os elementos que nela se encontravam envolvidos. Após o sucedido, Carvalho e Melo não hesitou em informar a Inglaterra acerca da situação que, inquestionavelmente, o levara a manter-se desconfiado da Espanha. Segundo ele, Castela esperava ganhar tempo para destruir Portugal antes que chegasse auxílio britânico. Sempre que o inimigo se movimentava, Portugal imediatamente transmitia-o à Inglaterra, a fim de que esta se mantivesse preparada para enviar auxílio.. Foi o que aconteceu em 1766, quando se previa uma nova invasão ao Reino e o Marquês, sempre alerta, tomou as medidas necessárias para a defesa da nação.
Ao longo do reinado josefino, a política externa defendida por Pombal consistiu sempre na fidelidade para com a aliança britânica, tendo sempre em conta as suas vantagens bilaterais, já que ambas as nações poderiam usufruir dela.
[ CITI ]