A Reconstrução da cidade de Lisboa
"A nova cidade, exemplar único do urbanismo das Luzes, foi planeada com régua e compasso pela Razão. (...) É a razão em pedra. Sem desvios nem fantasia." (Saraiva, José Hermano, Guerra, Maria Luísa, Diário da História de Portugal, Madrid, Selecções do Reader's Digest, Maio de 1998, p.305 )
Foi com o terramoto de 1755 que o Marquês de Pombal adquiriu plena oportunidade de se afirmar como homem providencial ao lado do rei, estatuto que, até à morte do monarca, não mais perderia. Pombal acabaria, aliás, por substituir, na prática, o rei em todos os assuntos de Estado.
Para que fosse possível reedificar a cidade no mesmo local em que se encontrava, foi proibida a construção de casas novas na parte antiga, pelo que os seus moradores se viram obrigados a viver em barracas, sendo o exemplo dado pela nobreza e mesmo até pela família real. Carvalho e Melo incumbe, então, o engenheiro-mor Manuel da Maia de uma série de projectos a submeter às considerações do monarca. Foi assim que se pensou fazer a reconstrução nos moldes da cidade antiga, quer com o alargamento das ruas, quer diminuindo a altura dos prédios. No entanto, ficou decidido, mais tarde, proceder a uma reedificação baseada num plano novo que tivesse em consideração o estilo e a segurança dos edifícios.
Deste grandioso projecto, o Marquês de Pombal incumbiu o arquitecto Eugénio dos Santos. O plano por este apresentado introduz um traçado extremamente interessante, que se prolonga até S.Paulo, ao Convento de S.Francisco e, a norte, à igreja de S.Roque. O traçado aprovado alinha o lado poente das duas grandes praças do Rossio e do Terreiro do Paço, este agora com o dobro da dimensão do primeiro e totalmente regular. A uni-las encontram-se duas grandes ruas de quarteirões homogéneos, sendo os três últimos do lado do rio transversais e os restantes longitudinais. Os prédios passam a ter quatro andares e são maioritariamente erguidos por burgueses e ocupados por artífices que Pombal circunscreve às suas ruas. As novas ruas são dotadas de passeios, de modo a facilitar a circulação, são largas e arejadas, tendo as principais sessenta palmos de largura e quarenta as restantes. Garantia-se, assim, a «liberdade de ar e luz» bem ao gosto dos novos urbanistas. O Marquês de Pombal trouxera, aliás, de Viena, ideias próprias acerca do urbanismo que mais convinha aplicar na capital. Os blocos habitacionais eram todos bastante semelhantes, distinguindo-se as fachadas apenas por certos pormenores estruturais ou decorativos, consoante a zona. As fachadas dos edifícios nas ruas principais exibiam portais com bandeiras, rodapés, janelas de sacada, com varandins no primeiro piso, vergas e águas-furtadas decoradas. As fachadas das mais importantes ruas secundárias ficavam privadas de varandim e de alguns requintes decorativos. As restantes fachadas não tinham sequer janelas de sacada e os vãos eram desprovidos de coração.
A grande fachada desta Lisboa reconstruída será, porém, o Terreiro do Paço, que exibe uma monumentalidade única em toda a cidade. Esta é a única zona da Baixa a receber arcadas. O arco monumental que Eugénio dos Santos prevê para o acesso à Rua Augusta (o qual só será construído no séc. XIX e de forma bastante diferente ) retoma a memória de arcos triunfais efémeros erguidos no séc.XVI. Apesar disso, a nova praça constitui, no geral, um exemplo de ruptura com o passado, revelando-se como símbolo da racionalidade da nova arquitectura lisboeta, que valoriza a simplicidade e a eficácia aliadas à maior economia de meios possível. É principalmente a burguesia que vai, não só ocupar, como também custear a nova cidade, sendo esta também a sua praça, onde se situam a Bolsa, a Alfândega, os tribunais e os serviços públicos. Em 1759 começa, já, a utilizar-se o nome que esta viria a receber oficialmente: «Praça do Comércio».
Dominada pelo racionalismo e pelas novas ideias iluministas de felicidade e harmonia do homem com a natureza, a Lisboa pombalina apresentará, igualmente, soluções técnicas bastante eficazes. O peso da engenharia militar na construção da nova cidade traduz-se no facto de a planta da Baixa lisboeta lembrar um gigantesco acampamento militar. É também de sublinhar a invenção da «gaiola», uma espécie de esqueleto feito com grossos barrotes de madeira e assente em estacas que atravessam o chão ao nível dos alicerces, sendo a sua função suportar os diversos pisos, apesar da possível derrocada das paredes no decurso de um terramoto. Para evitar fogos introduziram-se corta-fogos e passou a deixar-se uma distância calculada entre os prédios.
Em 1760, com a morte do arquitecto Eugénio dos Santos, é o major Carlos Mardel que dá continuação ao projecto de reconstrução da cidade. Ambos merecem o honroso título de arquitectos da Lisboa nova. Depois de 1763, é Reinaldo Manuel dos Santos quem passa a conduzir o projecto.
Vinte anos após a catástrofe, o aspecto da Baixa lisbonense era já outro. O Senado da capital sugeriu, então, a elevação de um monumento a D.José I, ideia que foi aprovada pelo Marquês de Pombal, isto se não mesmo sugerida por ele, visto que seu filho Henrique, segundo Conde de Oeiras, presidia, na altura, à Câmara de Lisboa.
A admirável inteligência de Sebastião José de Carvalho e Melo transparece em todo o seu enérgico esforço reconstrutivo da cidade de Lisboa. Ele não se limita a conceber a vasta obra de reedificação de uma nova cidade, sob um plano de beleza e grandiosidade que contrasta com o velho burgo de ruas turtuosas e estreitas ainda patente nos bairros que conseguiram resistir à violência do sismo. Mais do que isso, Pombal impõe-se à «tendência do menor esforço», cujo propósito seria construir novamente a Lisboa anterior ao terramoto.
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