O Terramoto de 1755
"No meio da afflicção geral o forte Pombal era um ente privilegiado e tutelar, a quem o perigo não esmoreceu; e foge a todos os calculos o bem que fez ao seu paiz e a particulares nesta crise memoravel!" (Aranha, Brito, O Marquês de Pombal e o seu centenário, Lisboa, Imprensa Nacional, 1908, p.9.)
No dia 1 de Novembro de 1755 celebrava-se a festa de Todos-os-Santos, pelo que as ruas da cidade de Lisboa exibiam um movimento pouco usual e as igrejas se enchiam de fiéis. A terra começou a estremecer pelas 9h30m, seguindo-se novas e fortes vibrações, que, ao longo de cerca de sete minutos, demoliram uma elevada quantidade de edifícios, deixando outros em ruínas. Lisboa cobria-se com montes de pedra e de caliça. Ateavam-se incêndios, que reduziam os escombros a cinzas. O fumo e a poeira tornavam a atmosfera irrespirável e centenas de pessoas ficavam soterradas. Os mortos enchiam as ruas. Pelas 11h fez-se sentir um novo abalo, desta vez menos intenso. A força do Tejo destruiu, então, as embarcações e tudo aquilo que pelo seu caminho encontrou. Seguiram-se novas oscilações durante o dia, pelo que muitas pessoas tentavam refugiar-se nos pontos altos da cidade e nos arredores, principalmente no Campo Grande e em Belém. Os criminosos, por sua vez, soltavam-se das prisões e aproveitavam-se da situação de pânico geral para assaltarem os domicílios e, inclusivamente, matarem os resistentes.
D.José I e a família encontravam-se, na altura, no «campo real» de Belém, onde o sismo não se fez sentir com tanta intensidade. No entanto, o rei ficou tão perturbado com a tragédia que, passados anos, continuava ainda a recear viver em edifícios de pedra. Chegou mesmo a correr o rumor de que D.José I pensara abdicar em favor do seu irmão, o infante D.Pedro, devido à falta de coragem para enfrentar a calamidade, o que não se chegou, efectivamente, a verificar.
Nenhum dos Secretários de Estado compareceu em Belém a fim de receber instruções do monarca e enfrentar a situação. Diogo de Mendonça fugira aterrado com a catástrofe e Pedro da Mota encontrava-se doente. Reserva-se, aqui, uma excepção: Carvalho e Melo foi o único que se apresentou, mostrando-se firme e convicto numa resolução para o problema. O Marquês e D.José I decidiram, então, combater os três males que mais vitimavam a população: a peste, a fome e os vadios que atacavam a vida e a propriedade alheias. Era necessário por ordem na imensa confusão que se instalara e foi isso que o rei decidiu fazer, aconselhado pelo Marquês de Pombal, ainda no próprio dia em que se dera o terramoto. A expressão «enterrar os mortos, cuidar dos vivos e fechar os portos», que alguns defendem ser da autoria do Marquês de Alorna, acabou por tornar-se no lema de acção de Carvalho e Melo perante toda a tragédia. Ninguém melhor que o Marquês de Pombal soube, então, impor-se aos acontecimentos. Depressa foram providenciados mantimentos que cobrissem as necessidades dos doze bairros da cidade, foi proibido o aumento dos preços dos géneros e foram solicitadas pessoas que desobstruíssem as ruas e que dessem jazida aos mortos, atando--lhes pesos e lançando-os no mar, a fim de se evitar a disseminação de epidemias. Os culpados pelos inúmeros crimes e roubos que, então, se cometeram em diversas igrejas e casas de Lisboa foram severamente punidos, sem qualquer complacência. Aliás, a segurança pública foi um dos aspectos com que o Marquês de Pombal mais se preocupou, sendo sua intenção, com esta atitude, manter a confiança que a população em si depositava.
Os efeitos do terramoto suscitaram, por outro lado, uma intensificação da caridade pública, que se manifestou através de uma dádiva de jóias, roupas e mantimentos que a Fazenda Real, os nobres e os religiosos dispensaram às vítimas. Os mercadores dispuseram-se, por seu turno, a oferecer um donativo de 4% sobre os direitos aduaneiros que eram cobrados nas importações, o que duraria os anos necessários para reedificar as alfândegas do Reino. Para que Lisboa voltasse à normalidade, Carvalho e Melo logo deu ordem ao capitão Eugénio dos Santos e ao mestre pedreiro Patrício da Silva para visitarem as igrejas atingidas, a fim de que a reconstrução da cidade pudesse ser concretizada.
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