Descrença na evolução da sociedade humana
"Jornal de Letras - Acha então que a natureza humana não acompanhou o progresso científico?
Rómulo de Carvalho - Acho que não. Bem, os seres humanos continuam a ser os mesmos bárbaros que eram inicialmente. Nós somos animais, na nossa origem. E como animais nos comportamos (ligeiro e talvez amargo sorriso). É raríssimo encontrar um indivíduo que seja capaz de pôr de lado os seus interesses pessoais para facilitar a vida ao seu semelhante. Pegamos nos jornais e, todos os dias, nos admiramos com coisas espantosas (sorri de novo).
JL - O seu desencanto relativamente à evolução da sociedade prende-se também com o aspecto político?
RC - Com certeza. De facto, vemos sucederem-se situações políticas e, embora de princípio as coisas sejam muito sonhadas, acabam sempre por cair nas nossas dúvidas.
JL - Que dúvidas?
RC - Quer dizer, qualquer governo que hoje se estabeleça e que seja bem recebido, uns anos anos depois de estar no poder começa a levantar dúvidas mesmo naqueles que o aplaudiram. E o que leva um homem a lutar tanto para alcaçar um lugar de poder? Certamente que é algum interesse pessoal.
JL- E não serão também ideais ?
RC - Acredito até que possa lutar pela melhoria da vida, da situação dos outros. Mas a realidade da vida é muito contrária aos ideais. Depois começa a sentir pressões de um lado e de outro, sente necessidade de satisfazer aqueles que deram dinheiro para a campanha de propaganda que o levou ao poder (um ligeiro esgar). É obrigado a ceder uma coisa, depois a outra. E, pouco a pouco, vai-se pervertendo. Todos caem no mesmo. E os governos sucedem-se uns aos outros.
JL - Parece muito pessimista, mesmo em relação à democracia.
RC- Mas depende do sentido que se dê à palavra. Pessimista pode parecer que a pessoa olha com olhares péssimos as coisas boas. Por mau feitio ou azedume pessoal (sorri). Mas não é disso que se trata. Eu percorri este século todo
JL- ... já viu, portanto muito mundo
RC- Vi muitíssimas coisas. E se olhasse para trás e quisesse citar uma época em que tudo tivesse corrido bem, neste século, não encontrava nenhuma.
JL - Nenhuma?
RC - Pois não. Todas elas correram mal e por isso se transformaram. Cada uma das fases começava bem e, depois, ia-se degradando.
JL - Se se transformavam não é porque, de alguma maneira, há sempre o anseio humano de conseguir melhorar?
RC - Isso é verdade. Mas olhe que o anseio humano se limita sempre ao anseio de ver os interesses de cada um satisfeitos. Tudo se resume a isso."
in Jornal de Letras, Ano XVI, nº 680, de 6 a 19 de Novembro de 1996
"Expresso - Desencanta-o assim o género humano?
Rómulo de Carvalho - Sou até muito alegre. O que me rio muito é para dentro; até dou grandes gargalhadas, só que o meio não é transmissor de som. Mas há um desencanto. Tenho-me interessado sempre muito pela história, meditei sobre as coisas que fui conhecendo e sempre notei os mesmos defeitos em todos os seres humanos, de hoje como de séculos anteriores. A sociedade vive sempre de maneira muito precária, dominada por uns tantos.
Exp - Quais são esses grandes defeitos?
R.C. - A presunção, por exemplo. As pessoas são muito levadas a convencerem-se que as coisas são como elas pensam sem atender à longa ancestralidade que os encaminhou a pensar e sentir de uma determinada maneira. Admitem que há uma liberdade total no seu pensamento e na sua conduta quando afinal tudo isso é muitíssimo condicionado. Se a minha mãe fosse doutro modo eu não seria como sou."
In Jornal Expresso, 4 de Junho, 1994
"Diário de Notícias - Não lhes descobre [aos homens] virtudes que atenuem essa desconfiança?
Rómulo de Carvalho - Individualmente sim; há pessoas com muitas virtudes, capazes de fazerem alguma coisa, mas sozinhos não conseguem nada.
DN - O erro residirá só na proporção homem-espaço-recursos ou igualmente na forma como são geridos espaços e recursos?
R.C. - Está, sobretudo, na exploração. Mesmo que digam a uma pessoa para não fazer isto ou aquilo, para não cortar, por exemplo, as árvores todas, por atentar contra a vida dos outros, quer lá saber! Encolhe os ombros e faz o seu negócio. Mas isso são coisas para o futuro.
( ) Acredito na mudança de pormenor e não numa mudança social mais útil a toda a gente.
( ) Os seres humanos continuam como eram há séculos e séculos. O nosso melhoramento é de natureza científica e técnica
D.N .- Nem uma maior preparação académica propicia melhorias?
R.C. - Não creio. O homem de hoje faz tantas barbaridades como o das cavernas.
D.N. -Terá as mesmas motivações?
R.C. - Podem ser outras. A maneira de planear, mais cínica, possivelmente. Os outros eram mais impulsivos, agora tudo se faz com mais meditação. Mas o homem continua bárbaro como há milénios. O nosso progresso é todo técnico e científico.
D.N. - Quando um homem tenta progredir na tecnologia e na ciência não está implícito um desejo de ajudar a humanidade?
R.C. - Não, porque os cientistas e os técnicos quando procedem às suas investigações e realizações não pensam nisso.
D.N. - Individualismo pelo individualismo?
R.C. - Há o gosto pessoal por esse trabalho, mas não a pensar na sociedade."
In Diário de Notícias, Ano 131, nº 46006, 9 de Março, 1995
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