O que diz José V. de Pina Martins (obra científica)

Presidente da Academia das Ciências

"Alguns trabalhos de Rómulo de Carvalho podem considerar-se pedagogicamente de divulgação. Entre nós há quem julge- erroneamente decerto- que a divulgação científica equivale a superficialidade. Ora se na criação científica o rigor é uma condição sine qua non do método, na divulgação o rigor é tão indispensável como na investigação. Desde a área da história da ciência à história da cultura, as contribuições de Rómulo de Carvalho fundam-se sempre numa pesquisa metodicamente orientada. E em toda a multiplicidade das suas investigações, quantas novidades nos oferece, quantos novos horizontes nos rasga o seu trabalho intelectual! As comunicações à Academia das Ciências, os excursos monográficos editados na colecção Cosmos, as contribuições de difusão de conhecimentos antigos e modernos nos Cadernos de Iniciação Científica Sá da Costa, os artigos publicados na Gazeta de Física e as colaborações, mais culturais e literárias- embora não raro também científicas e históricas, publicadas na revista Palestra- as monografias sobre física experimental setecentista e os contributos sobre a física da reforma pombalina, sem já referir os manuais de Física para os últimos anos dos estudos secundários, todos estes trabalhos de Rómulo de Carvalho são ao mesmo tempo os escritos de um mestre, de um sábio e de um pesquisador incansável.

Por outro lado, o homem da ciência procura sempre, pela reflexão e pela expansão dos conhecimentos essenciais, erguer-se contra a superstição, o obscurantismo, os lugares comuns da meia cultura, dos vários saberes deformados e inquinados pelo espírito de parte ou pelos pruridos de um nacionalismo redutor pelo que diz respeito à visão universal do homem. Também o estudo da Química e a sua própria história, desde os primórdios alquímicos, lhe devem contribuições valiosas.

Se o poeta( sem esquecer o novelista) é uma figura grande da literatura portuguesa contemporânea, seja-me permitido sublinhar a importância do livro "O texto poético como documento social" em que o crítico Rómulo de Carvalho nos oferece uma ampla e rica visão sintética do social na poesia portuguesa desde a idade média até ao nosso tempo.

O professor não podia desinteressar-se da história da Escola do nosso País, com todos os seus problemas. Deu-nos, por isso mesmo, a História do Ensino em Portugal, obra que, apesar das suas quase mil páginas, já vai na segunda edição: é o primeiro tratado monográfico global sobre o ensino entre nós. Isto seja dito sem desprimor para outros livros da histórias da nossa pedagogia, como a História da Fundação do Colégio Real dos Nobres de Lisboa, a História do Gabinete de Física da Universidade de Coimbra (no último quartel do século XVIII) e, na colecção "Biblioteca Breve", A História Natural em Portugal no século XVIII, obras em que num estilo castigado e simples, despojado mas castiço, como convém à ciência, Rómulo de Carvalho, no acto de elaborar uma história, de ser historiador, é ao mesmo tempo cientista e humanista.(…)"

Lisboa, 24 de Novembro de 1996

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