O que diz Jorge de Sena

Prefácio a "Poesias Completas (1956-1967)"

A poesia de António Gedeão (esboço de análise objectiva)

"A poesia de António Gedeão está reunida em três volumes, aparecidos desde 1956: Movimento Perpétuo, Teatro do Mundo (1958) e Máquina de Fogo (1961). Na data em que surgiu como poeta, já não era um jovem quem se estreava, nem uma figura desconhecida, ainda que com outro nome (o seu), no panorama da cultura portuguesa, onde se distinguia como divulgador e historiador da ciência. Aqueles livros de um homem que rondava, ao lançar-se na triste aventura de publicar poemas, os cinquenta anos colocaram-no logo entre os melhores nomes da poesia portuguesa comtemporânea, pela originalidade e pela segurança artística, e geraram um movimento de simpatia e de admiração, que não é costume formar-se assim em torno de uma estreia, ou de uma obra realizada de público em tão poucos anos.

Esta obra pode parecer que é breve. No entanto cada um dos três livros contém trinta poemas. E os noventa poemas, num total de cerca de 2800 versos, constituem um conjunto assaz numeroso, uma produção de dimensões respeitáveis, quando com muitos menos versos outros poetas têm, por justiça e direito próprio, e às vezes por inflação da crítica, grande lugar na história literária. Por outro lado, dir-se-á que uma obra que, desde o primeiro volume, vem sendo publicada há escassos oitos anos, não atingiu ainda aquele distanciamento de que se organizam as «obras completas». Mas a idade do poeta, ao estrear-se em volume, e a extensão relativa dela, uma e outra serão, com a qualidade desta poesia, garantia suficiente de que não estamos ante uma fugaz aventura literária, em que o brilho da realização artísitca seria até um indício da eventualidade dela. Um homem não começa a publicar livros de versos aos cinquenta anos, para brincar de poeta consigo mesmo, mas porque rompeu os muros da timidez e de orgulho que o inibiam de mostrar-se o poeta que era. Nem toda a poesia deste mundo nasce dos apetites juvenis de ser-se notável pelo menos para algumas páginas literárias e alguns críticos atenciosos.

(…)

Com efeito, primeiro publicado em 1956, quando estavam grupalmente extintos todos os movimentos do 2º quartel do século, e a maior parte dos poetas prosseguia individualmente o seu caminho (ou desconsoladamente permanecia nele), ele constituiu uma «novidade» sobre a qual todos se lançaram vorazmente. Ali estava um poeta novo e diferente, quando os outros, porque vinham existindo, se pareciam todos mais ou menos consigo próprios.(…) Assim apreciou-se, neste poeta, como novo, aquilo que ele afinal partilhava com muitos dos seus companheiros de idade, qual era um subtil compromisso entre a libertação modernista e os esquemas tradicionais(…).

A grande novidade era um visão do mundo, em termos de cultura científica actual, coisa que sempre for a de bom tom literário que as pessoas escondessem, se acaso possuíam algo de semelhante.(…) O tremendo mal do nosso tempo, que é a cisão entre uma cultura literária que se pretende largamente humanística e é apenas uma forma organizada de ignorância do mundo em que vivemos, e uma cultura científica que não sabe sequer da existência dos valores estéticos que dão humano sentido à vida, esse mal não favorece o entendimento de um poeta como António Gedeão.

(…)

Dissemos que nos três livros de António Gedeão havia noventa poemas, trinta em cada. Por certo, esta medida rigorosamente repetida de livro para livro, corresponde à extensão que o autor considera ideal para um livro de poemas seus. E se falamos em poemas e não em versos é porque como veremos, o número total de versos por livro está muito longe de ser o mesmo em todos eles. O primeiro livro é muito menos extenso que a média, o segundo é-o muito mais, e o terceiro é o que se aproxima dela, como se o poeta estivesse procurando, por tentativas, uma relação ideal entre a extensão dos seus poemas e a dos seus livros. O que nos mostra como a poesia de Gedeão tem, muito mais do que parece, um carácter experimental.

(…)

Livros

Número de Versos

Número de Poemas

Versos/Poemas

Movimento Perpétuo

613

30

20,4

Teatro do Mundo

1217

30

40,6

Máquina de Fogo

949

30

31,6

Total

2779

90

30,9

Não esqueçamos, porém, que estas observações se reportam aos livros, cada um em conjunto, e ao somatório dos três.(…) sendo assim, observa-se que, internamente a cada livro e na variação individual da extensão dos poemas, encontramos o reflexo do que as médias nos haviam apontado. Mas juntémos num quadro comparativo os máximos e mínimos, bem como o número de extensões diferentes.

Livros

Extensão dos Poemas

Mínimo

Máximo

Movimento Perpétuo

20

6

48

Teatro do Mundo

23

12

108

Máquina de Fogo

22

4

92

Este quadro torna claro que, para trinta poemas em cada livro, as diversas extensões tem uma escala de variação de igual nível, sendo em todos eles muito poucos os poemas de extensão idêntica.

(…)

Diz-se habitualmente, sem que isso tenha qualquer base na investigação rigorosa, que os poetas têm a sua medida predilecta, que é, no verso, o equivalente de extensão, como elemento indicador do seu tipo de fôlego.(…) No caso de António Gedeão, 64% dos seus versos, nos três livros, são de 7 sílabas e o que patenteia uma decidida e fixada preferência por essa medida «popular». O restante terço do total reparte-se igualmente entre versos com menos e versos com mais de 7 sílabas. E, nos cerca de 2800 versos destes três livros que examinamos, só 201 são o que pode chamar-se «irregular-se» ou livres, ou sejam 7% do total. Gedeão, portanto, pelo menos nos poemas que publicou mostra, uma obediência estrita ao verso metricamente tradicional, que se cifra em 93% deles. Nesta obediência, o domínio do verso de 7 sílabas é absoluto, o que não quer dizer que, entre os versos, não os haja de todas as medidas silábicas, desde 1 a 12 sílabas, limite último este, acima do qual considerámos «irregulares» as combinações métricas que o poeta organiza.

Livros

1

2

3

4

5

6

7

8

9

10

11

12

Irr

Total

M.P.

11

9

32

22

9

9

434

7

6

14

11

10

47

613

T.M.

1

1

9

114

100

14

897

4

-

21

4

22

30

1217

M.F.

13

5

9

20

51

98

437

1

1

101

3

86

124

949

Totais

25

15

50

156

160

121

1768

12

7

136

18

118

201

2779

(…)

Estas análises, que até fizemos, mostraram-nos objectivamente como António Gedeão usa da extensão dos poemas, quais os seus limites característicos, e a especificidade da sua respiração métrica, em relação aos esquemas métricos tradicionais. Mas uma obediência ou um confinamento a esses esquemas não é apenas marcado pelas medidas do verso: é- o também, e sobretudo, pela regularidade repetida de esquemas estróficos fixos.

(…)

Temos, portanto, que a obra poética de António Gedeão, avaliada nos seus aspectos externos- medida dos versos, extensão e regularidade das estrofes, esquema de rimas finais-, se caracteriza por um conservadorismo formal, em que se observa: o domínio quase absoluto do verso medido; neste, do verso de 7 sílabas; a elevada frequência de uma fixação estrófica regular, em que predomina o quarteto; a total presença da consonância final, em esquemas tradicionais de rima. Quanto à extensão dos poemas, que é muito variável (mas que, em média, aumentou do primeiro livro para os seguintes), nota-se que confinado-se a uns trinta versos por poema em média global, este valor, associado à regularidade estrófica e rítmica, mostra-nos concretamente como a poesia de António Gedeão, ainda quando se alonga em brilhantes e velozes poemas (em formas de balda ou de romance), é um pensamento poético que se desenvolve pela adição de unidades estróficas isoladas, a uma estrutura inicial análoga.

(…)Expressionalmente, é uma poesia em que o dedutivismo das estruturas «clássicas» se disfarça de ornamentalismo «barroco», cuja natureza é indutiva, em contradição com aquela geração dedutiva do ornamento.

(…) Poeta esteticamente muito consciente, e ao mesmo tempo de uma reserva capaz de esperar até aos cinquenta anos pela aparição pública, natural seria que o isolamento da sua vivência artística tendesse a mantê-lo num individualismo evolucional que o ar livre (e tão mefítico) do «status» literário dissiparia um pouco. Mas, por outro lado, se reflectirmos na contradição que nos foi revelada pela investigação e que existe entre classicismo e barroquismo expressional na sua poesia, dir-se-ia que o contacto poético e tipográfico com o «mundo», o barroquismo tende a levar a melhor de um exclusivismo clássico da organização expressional dos poemas. De resto, este barroquismo estará já desenhado no tipo de metáforas, que é aplicado aos títulos dos volumes: Movimento Perpétuo, Teatro do Mundo, Máquina de Fogo.

(…) É neste ponto que nos cumpre examinar uma outra característica deste barroquismo, qual seja o uso de formas vocabulares e conceptuais provenientes de domínios linguísticos alheios, ou tidos por alheios, à expressão literária. (…) Muito do fascínio exercido pelo vocabulário de Gedeão encontrará a sua explicação no acto compensatório que é, para literatos, admirar como literatura o que constitui os seus terrores e frustrações adolescentes de meninos mal examinados em ciências.(…) A linguaguem especializada que aparece nos poemas de Gedeão deriva da física, da química, das ciências naturais em geral (biologia, minerologia, petrografia). Ao contrário do que a novidade pode fazer crer, ela constitui pequena parcela da linguaguem dos poemas.

(…) Pela sua formação científica (que, se não fosse conhecida, se deduziria das ocorrências vocabulares especializadas), o poeta procura superar, e progressivamente o consegue de livro para livro, o impasse cultural do nosso e do seu tempo, que faz a poesia literara perder o contacto com uma realidade politico-social que é cada vez mais técnica (a um ponto que não permite a subsistência da mistificação idealística, quer no alheamento da cientização do social, quer na ingenuidade de que o prestígio da ciência é mecanismo de substituição).

(…) para o ar de ironia que referimos, contribui decisivamente, na poesia de António Gedeão, uma apurada técnica do «falso começo», que é indubitavelmente um meio de resolver poeticamente a contradição entre um individualismo que perdeu a razão de ser, e um colectivismo que, para a racionalidade social de um poeta lúcido, não superou ainda a fase de propaganda política e dos mártires oportunisticamente sacrificados, para passar à fase seguinte de superstrutura dirigente de uma realidade espoliativa socialmente conscencializada, muito difícil de atingir-se onde largas camadas de uma população seja, ao mesmo tempo, internamente subordinadas a um processo espoliativo, mas financeiramente pagas pelos lucros de uma exterior organização imperialista. Isto não aparece claramente na poesia de Antóno Gedeão, não porque o poeta não possa, como homem, ter consciência do problema, mas porque a sua consciência social, dependente de um trem de vida, anterior, como educação e formação, é por sua vez formulada em termos de individualismo rebelado consigo mesmo, e de desconfiaça céptica ante as duas realidades da miséria da vida, a que é agudamente sensivél.

(…)Muita coisa ficou por dizer neste prefácio, muitas outras foram aludidas, e ainda outras insistentemente tratadas. (…) Cremos firmemente que uma síntese desta rdem é o critério objectivo para juízos estéticos e para juízos até políticos, que se queiram algo mais que o mero oportunismo do artiguinho laudatório ou arrasador… E que não são muitos os poetas que resistirão à aplicação rigorosa e implacável destes exames. Também na medida do nosso possível, e não apenas das oportunidades prefaciais gostosamente aceites e cumpridas, é a triste sorte que os espera a todos. Queriam então ser cidadão de república das letras, apenas passando o exame dos cabos eleitorais? O tempo desse liberalismo de grupos e de classes passou. Agora tal como na poesia de António Gedeão temos evidenciado com objectividade irrecusável, o tempo é de coisas assumidas com responsabilidade um poucco maior que o simples agrado ou desagrado dos diletantes, dos que ainda fazem das letras a profissão que não têm. Se, como diz o poeta (pela ordem, no primeiro dos seus poemas, que é o primeiro do primeiro livro), é «inútil definir este animal aflito», será porque, como ele também diz, a sua aldeia «é todo o mundo». E não interessa na verdade definir o que um homem é, porque só é definível o que ele faz. Disso procurámos tratar neste prefácio.

Araraquara,São Paulo, Brasil, Março de 1964

Jorge de Sena

Post Scriptum

Nos quatro anos decorridos desde que este prefácio foi escrito até que se reimprime na reedição destas «Poesias Completas», António Gedeão publicou um «Poema para Galileo» comemorativo do centenário do sábio italiano, e um outro livo de poemas, Linhas de Força em 1967. Nada do que foi dito no presente prefácio necessita de ser alterado visto que else se atinha estritamente a observações referentes aos três volumes de poemas, que o autor até então publicara e constituíam a colectânea de poesia completas.

(…) Pode dizer-se que, neste 4º livro, tal síntese [entre terminologia científica e linguaguem padrão] só se verifica- aliás admiravelmente- num poema (Lição sobre a Água); e só em 7 dos 30 poemas do livro a linguaguem científica ocorre, o que corresponde a 23%, ou seja menos de metade do que ocorria no primeiro livro. A que se deverá esta reversão total de uma tendência evidente e manifesta, e que representava uma das mais peculiares originalidades da poesia de António Gedeão? A um receio que a sua poesia se tornasse inacessível aos leitores e aos literatos? Ou, dado que havíamos apontado (precisamente para prevenir os clamores dos desatentos que não tivessem ainda percebido a que ponto essa incidência terminológica era essencial na evolução da poesia de Gedeão) como tal terminologia não sua, de um modo geral, de que era acessível a quem tivesse o curso liceal complementar de ciências, será que o poeta não quis continuar a escrever poemas que alguém dissesse de professor de Física?

(…) O poeta procura um novo equilíbrio- a nossa opinião é que ele o não encontrará, se se ativer a escrever como os outros, e não a linguaguem que ele vinha tão notavelmente criando para si. Os efeitos desta criação são visíveis em muitos passos deste livros, na precisão e no rigor com que os termos mesmo comuns são usados, mas não estão aplicados como vinha acontecendo cada vez mais nos livros anteriore, à criação de uma atmosfera original, em que até as palavras ccomuns assumiam conexões insóliras,

(…) num próximo post scriptum, estamos certos, todavia, de poder celebrar definitivamente a grandeza prometida e sempre crescentemente realizada, nos três primeiros livros que em conjunto, tivemos o gosto e a honra de prefaciar.

Madison, Wisconsin, USA, Abril de 1968

Jorge de Sena

In Prefácio de Poesia Completas (1956-1967), Antóno Gedeão, pág IX a LXXXVI, 3ª edição, Portugália Editora, Lisboa,

A opinião de Rómulo de Carvalho/António Gedeão

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