A experimentação em Rómulo de Carvalho

Carlos Fiolhais

"O átomo começou por ser uma hipótese, uma suposição simplesmente cómoda para tornar mais fácil a interpretação do Universo, e acabou por ser um 'objecto', uma 'coisa', que se pode dirigir, dominar, criar e destruir. Foi como se alguém tivesse sonhado com um mundo fantástico e um dia o descobrisse, vivo e real, ao dobrar o cotovelo de uma estrada. Certamente ninguém acredita na existência das coloridas paisagens que o génio de Walt Disney tem imaginado e seria bem tolo aquele que percorresse o mundo na esperança de as encontrar. E se a encontrássemos, um dia, noutro planeta?

E assim sucedeu com o átomo: nasceu na imaginação e, afinal, existia."

Rómulo de Carvalho, "História do Átomo", Atlântida Editora, Coimbra, 1975

Rómulo de Carvalho é, para nós, tanto aprendizes como ensinadores de Física, uma figura exemplar num tempo em que as figuras exemplares não abundam. É para nós um modelo a seguir e um estímulo para prosseguir. Ensinou-nos não só o valor inquestionável da experiência mas também o valor primordial da imaginação e da inteligência. Ensinou-nos ainda a virtude pedagógica da clareza e o prazer sedutivo da linguagem (se for preciso demonstração releia-se o excerto citado no início)

(…) O raio de acção de Rómulo de Carvalho chegou for a da escola e dos seus discípulos directos através dos seus livros. Sem os livros não teria chegado nem exemplo nem estímulo."

 Carlos Fiolhais

In artigo "Os meus livros favoritos de Rómulo de Carvalho", págs. 15 a 17, Gazeta de Física, vol. 20, fasc. 1, Janeiro/Março, 1997


"Jornal de Letras- Referiu-se ao entusiasmo que suscitavam as experiências laboratoriais. Essa sua prática não era corrente na época?

Rómulo de Carvalho- Não seria o único, mas raros seriam os que o faziam. Falar apenas certamente faria adormecer os alunos. Convinha ilustrar aquilo que se dizia. E as experiências são muito atraentes. Além daquilo que se quer provar, há sempre pormenores, coisas originais, que os alunos vão descobrindo. Acho que o recurso à experiência é fundamental para o ensino. Pelo menos na Física e na Química. Se eu apenas falasse de teoria, os alunos podiam seguir com algum interesse , mas com certeza que as pálpebras acabariam por começar a pesar…. (ri-se). Eu mesmo imaginei muito material para as minhas experiências. Quando estava no Pedro Nunes, pedi ao reitor que pusesse uma mesa de carpinteiro no laboratório de Física. Construía muitos objectos necessários que não havia no liceu. E imaginava outros.

JL- No fundo, era essa cadeia prodigiosa: A imaginação, a mão e o mundo.

R.C.- Exacto. Foi, aliás, pelo lado experimental que optei pela físico-química. Está ligado ao gosto que sempre tive me trabalhar com as mão. Podia bem ter sido marceneiro. E suponho que seria apreciado. Fiz, de resto, muito mobiliário que tinha em casa, no princípio da vida."

 in Jornal de Letras, Ano XVI, nº 680, 6 a 19 de Novembro, 1996

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