Homenagem a Rómulo de Carvalho na Academia de Ciências de Lisboa

O Presidente da Academia das Ciências José V. Pina Martins

A personalidade de Rómulo de Carvalho é plurifacetada. São muitíssimos os investigadores que o seu magistério marcou ou influenciou, havendo contribuído para opções científicas essenciais, até para despertar vocações. Rómulo de Carvalho, como Professor, semeou o amor da ciência e da cultura na mente de centenas, talvez de milhares de discípulos, futuros docentes e investigadores. Todos os que tiveram a fortuna de o escutar como alunos para sempre recordarão o Mestre. Neste, coincidem a consciência de uma densa humanidade bem desperta, uma exigência forte da qualidade pedagógica e o amor da ciência, da pesquisa e das letras. Dotado de uma inteligência sensível, Rómulo de Carvalho possui igualmente uma sensibilidade inteligente. Daí o confundirem-se na mesma personalidade o cientista e o poeta, o cultor de um conhecimento rigoroso e o rigoroso artista ou artesão da palavra, insuflada pelo amor da liberdade de espírito, das causas generosas, da abertura ao pensamento universal. Todas estas qualidades e a orientação de uma forma mentis voltada para a verticalidade moral e o splendor veritatis podem documentar-se na sua bibliografia: o mestre, o estudioso e o poeta estão bem presentes, bem vivos na obra do investigador que sabe transmitir em claridade radiosa os resultados da sua reflexão e da sua ciência. Rómulo de Carvalho é, portanto, um notável pedagogo. Daí a sedução exercida junto dos jovens que o tiveram como professor. Daí, também, o exaltador das já referidas causas generosas e dos insignes criadores de ciência que, como Galileo Galilei, sofreram na sua alma as ofensas da intolerância e os insultos arrogantes, insuportáveis, do obscurantismo. Seja-me permitido lembrar aqui aqueles versos tão belos do Poema para Galileo:

Eu queria agradecer-te, Galileo,

a inteligência das coisas que me deste.

Eu

e quantos milhões de homens como eu

a quem tu esclareceste[…].

Na poesia de António Gedeão vibra toda a livre humanidade de Rómulo de Carvalho. A sua homenagem ao sábio confunde-se com a solidariedade pela vítima da prepotência e intolerância inquisitoriais, embora no passo transcrito seja principalmente o homem da ciência que o poeta celebra.

(…)

Em última análise, é em todos os estudos- cujo cômputo quantitativo global não deve andar longe das doze mil páginas- que se revela a rica personalidade intelectual de um mestre raro, de um meticuloso investigador e de um notável artista da palavra. Reconhecê-lo na apresentação das suas obras constitui a melhor homenagem que poderemos prestar ao cientista, ao historiador e ao poeta.

Lisboa, 24 de Novembro de 1996

[ CITI ]