Fala do Homem nascido

Venho da terra assombrada

do ventre de minha mãe

não pretendo roubar nada

nem fazer mal a ninguém

 

Só quero o que me é devido

por me trazerem aqui

que eu nem sequer fui ouvido

no acto de que nasci

 

Trago boca pra comer

e olhos pra desejar

tenho pressa de viver

que a vida é água a correr

 

Venho do fundo do tempo

não tenho tempo a perder

minha barca aparelhada

solta rumo ao norte

meu desejo é passaporte

para a fronteira fechada

 

Não há ventos que não prestem

nem marés que não convenham

nem forças que me molestem

correntes que me detenham

 

Quero eu e a natureza

que a natureza sou eu

e as forças da natureza

nunca ninguém as venceu

 

Com licença com licença

que a barca se fez ao mar

não há poder que me vença

mesmo morto hei-de passar

com licença com licença

com rumo à estrela polar

 

In Teatro do Mundo, 1958

[ CITI ]