Ideologia

"A ideologia de António Gedeão foge tanto à ideologia oficial como ao padrão cultural da classe dominante, que chega não raro a afectar o discurso mesmo daqueles que contestam o regime. É a ideologia de um sage:cientista, professor, poeta, espectador crítico, e dilacerado, cuja intervenção se resume ao seu fazer de artista, mas que penetra fundo em quem o lê. Ele sonha a harmonia do mundo, isto é, a igualdade na desigualdade, a fraternidade na competição ou na luta dos instintos; a liberdade íntima e cívica, que só pode conseguir-se através de um aperfeiçoamento incessante e progressivo da espécie humana.

Será redutor empregarmos a palavra socialismo para nos acercarmos desta cosmovisão? O certo é que não encontro melhor expressão. O mundo sonhado pelo trovador da «Pedra Filosofal» está ao mesmo tempo aquém e além da visão de Fourier, de Proudhon, de Karl Marx. É decerto um mundo sem Deus, no estrito sentido teológico da crença num criador do universo, omnisciente e omnividente, detentor do castigo e da recompensa. Materialista, darwinista, einsteiniano, Rómulo de Carvalho/António Gedeão sonha no entanto com o paraíso possível, a pacificação das feras que são a maioria dos homens, ainda presos e talvez para sempre nos primórdios da sua origem, mas capazes de ternura, de êxtase ante a beleza do mundo. É essa dualidade, a do homem preso à terra e à morte, condicionado pelas leis biológicas, rigorosas, da mecânica universal, e a da sua ascenção a uma plataforma superior de vida transformada através da cor, do gesto, da música e das palavras, que ele tenta comunicar-nos, ensinando-nos a olhar sem ilusões, mas com calma euforia, a beleza dos rios, das fontes, das plantas, das crianças, da união de contrários. E assim a sua poesia fala a dor, o absurdo e por vezes, com atormentada alegria, a esperança."

Urbano Tavares Rodrigues

TAVARES RODRIGUES, Urbano, "Decifrados do mundo ,Alquimista do sonho", in Jornal de Letras, Lisboa, 26 de Fevereiro, 1997

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