O que diz Jacinto Prado Coelho

Poesia mais aberta e vária, onde se reflecte a policromia do mundo, e que já ilustra bem a poética de "Suspensão coloidal", em "Máquina de Fogo": "Penso no ser poeta, e andar disperso/ na voz de quem a não tem;/ no pouco que há de mim em cada verso,/ no muito que há de tudo e de ninguém".

Enfim, "Máquina de Fogo", sem desmentir as tendências lírico-dramáticas anteriores, individualiza-se por nela avultarem o travo epigramático, a ironia cáustica, o escárnio, em poemas que o poeta lança, qual "fundibulário", ressentido e agreste: "ponho na funda um poema/ de agrestes arestas vivas". A ironia torna-se mais acerada, mais terrível ainda, pela sábia ingenuidade do dizer, em composições como "Dia de Natal", Hoje é dia de ser bom" ou "Trovas para serem vendidas na Travessa de S. Domingos". Aqui a circunstância, motivo e alusões vinculam o poeta e leitor ao nosso tempo, em que os sentimentos sublimes são fabricados em série e o espiritual se mecaniza: na rádio, coros de anjos exigidos pelo Natal alternam com anúncios de detergentes; o repórter fotográfico rejubila por conseguir fotografar cenas horríveis de fuzilamentos, e o estilo, mimeticamente, reproduz a insensibilidade egoísta, grosseira: "Foi uma sorte, realmente,/ um desses casos notáveis,/ bestiais e formidáveis,/ que acontecem raramente." O próprio "Poema épico" de Máquina de Fogo" é epopeia do avesso, por ácida ironia: a filha do alfaiate, o homem da barba por fazer, o da face doente, atolados na mesquinhez do quotidiano, "sentados às soleiras das portas/ mordendo a língua na tarefa inglória,/ com letras gordas e por linhas tortas/ vão redigindo a História". O contraponto de "Flor de baunilha" lembra "Contrariedades" de Cesário Verde, poema cujo princípio estruturador era também a antítese; o amor pelos outros, a compaixão, a revolta perante a injustiça ganham força redobrada pela expressão quase indiferente, de quem evita deixar-se arrastar pelos bons sentimentos, pospondo-lhes o interesse egoísta: "Neste momento, enquanto alguns milhões de homens fossam na conquista do pão/ estou pensando nela." E o motivo "humanitário" regressa adiante, como algo sem importância que se esqueceu: "Ah! É verdade! O pão!/ Os homens que não têm pão!" E não sabemos se o imperativo final ("Baixa as pálpebras, flor de baunilha!) é convite ao alheamento ou sinal de consciência inquieta.

In PRADO COELHO, Jacinto, Ao Contrário de Penélope, 1ª edição, Livraria Bertrand, 1976, pp 279-280.

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