João Caraça
"Conheci-o no meu 4º ano, no Liceu Pedro Nunes. Depois, foi meu professor quatro anos seguidos, aqueles anos que tanto contribuem para a formação de base. Por essa altura, já eu sabia que queria dedicar-me à investigação e senti uma forte influência da zona das matemáticas. Talvez porque o meu pai for a matemático. Mas o facto de ter tido Rómulo de Carvalho como professor mudou tudo. As suas aulas eram de uma enorme clareza e rigor e ele tinha uma grande preocupação em mostrar o significado físico dos conceitos, fazendo-nos compreender que as noções de física tinham fundamento na actividade e na existência dos objectos e dos corpos materiais, na natureza e na vida real das pessoas. Até aí, não tinha tal percepção de que a Física podia ser tão atraente. Isto fez com que eu quissesse seguir para Física. ( ) Tenho para Rómulo de Carvalho um enorme dívida de gratidão.
Como professor, ele era realmente muito claro e exigente, mas um pouco eservado e criava à sua volta um enorme respeito e também um certo temor. Sobretudo por parte dos que não eram tão bons alunos Podíamos perguntar-lhe tudo sobre Física, mas nada a seu respeito.
Outra coisa fundamental é que ele gostava muito de experimentar. Para além da teoria, havia esse aspecto encantatório do contacto com o laboratório. Com alguns alunos, Rómulo de Carvalho estabelecia um diálogo muito profundo que ultrapassava largamente a matéria disciplinar do ano. Além disso, havia aqueles livrinhos maravilhosos em que fazia a história dos balões, do átomo, etc. Tinha 14 ou 15 anos quando os li e deles retirei grandes ensinamentos. Tudo isto foi muito importante para a minha carreira futura.
Como pedagogo, ele conseguiu transmitir a um conjunto de jovens estagiários o gosto do ensinar Física, com a preocupação dos alunos. Foi muito mais tarde que li a sua fascinante «História da astronomia no Século XVIII» ou «História do Ensino em Portugal», que se tornaria um manual em que frequentemente mergulho.
Gostaria ainda de sublinhar a ironia ou o sentido de humor muito especial de Rómulo de Carvalho, o que também tinha a ver com a sua magia de ensinar.
E, por trás, todo um edifício cognitivo nacional, belo, harmonioso, se impunha."
João Caraça*
*Director do serviço de ciência da Fundação Gulbenkian
CARAÇA, João, in Jornal de Letras, Ano XVI, nº 680, 6 a 19 de Novembro, 1996
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