José Nisa

" António Gedeão, aliás, o professor Rómulo de Carvalho, é duas pessoas: o Poeta e o Cientista. Quem conheça o seu belo poema «Lágrima de Preta» perceberá como se pode criar poesia num laboratório e fazer a fusão das palavras com os reagentes. Penso que terei sido eu o compositor que mais poemas de Gedeão musicou. Mas- o seu a seu dono!- foi o Manuel Freire quem descobriu a imensa musicalidade da sua poesia e com ela fez um das mais belas canções da música portuguesa- «Pedra Filosofal».

Em 1969, eu estava no mato do Norte de Angola, alferes-médico da guerra colonial. Um dia, um amigo meu, o Eduardo Cambezes, mandou-me a obra poética de Gedeão. Pouco tempo depois eu tinha composto uma dúzia de canções que deram origem ao álbum «Fala do Homem Nascido», editado em 1972, quando regressei da guerra.

(…) Mas, para ser justo, o grande mérito vai para o Poeta.

É que para além da sua beleza simples, da sua estrutura e do seu rigor «científico», a poesia de Gedeão é, sobretudo, musical: as palavras, a sequência das palavras, já vêm envolvidas e embaladas em música e tornam fácil e fluente a invenção das melodias e das harmonias.

(…) Daí que Gedeão- talvez sem o saber- é, para além de poeta, para além de cientista, também músico e compositor, porque a música já vem com as palavras.

E que palavras!"

José Nisa*

* Compositor que musicou vários poemas de Gedeão, psiquiatra e deputado do PS.

NISA, José, in Jornal de Letras, Ano XVI, nº 680, 6 a 19 de Novembro, 1996

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