Manuel Freire

"Um dia, ao praticar um dos meus desportos favoritos, a leitura, tropecei num livro de poesia de um senhor chamado António Gedeão. Descobri depois que este senhor, por estranho mistério jeckillhydiano, era também autor de um compêndio liceal, pelo o qual eu era suposto estudar (pouco)…

Mas mais do que tropeçar no livro, aconteceu-me esbarrar frontalmente com alguns dos conjuntos de palavras que lá vinham, choque esse acompanhado de comichão nos dedos, vibrações nas cordas vocais, tremores e palpitações (estes e estas internos).

Abreviando; fui-me às palavras, roubei-as e, com, elas, fiz cantigas.

Depois houve discos, um programa de televisão muito importante chamado «Zip-Zip» e passaram trinta anos. Trinta anos durante os quais aquelas palavras e outras que o mesmo senhor esqueceu foram correndo mundo, tocando muitos ouvidos, aquecendo muitos corações, saindo de muitas bocas, entrando talvez até em alguns cérebros!…

Ao longo desses 30 anos, de terra em terra, fui companheiro de viagem dessas palavras, cantando-as, dizendo às pessoas quem as havia escrito por mim e, até, imagine-se!, ganhando algum dinheiro com isso!…

A essas palavras palavras devo amigos e tantas outras coisas, que, por nunca as poder pagar e por prudência ou pudor de caloteiro, não referirei. A essas palavras e a quem as juntou, a quem lhes deu música que eu não inventei mas só descobri.

(…) Num mundo cada vez mais feio, porco e mau, as pessoas especiais como o António Gedeão são as que nos fazem acreditar que esse mundo pode ser, que o podemos fazer, que temos de o fazer, um pouco mais lindo, mais limpo, melhor. São os imprescindíveis!

O António Gedeão não merecia este texto; mas que fazer? Eu sou bom é com as palavras dele e estas são minhas."

Manuel Freire*

* Cantor que consagrou o poema de Gedeão «Pedra Filosofal»

FREIRE, Manuel, in Jornal de Letras, Ano XVI, nº 680, 6 a 19 de Novembro, 1996

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