José Mariano Gago
"O nome de Rómulo de Carvalho li-o pela primeira vez na capa de um livrinho da Arcádia chamado «O que é a Física» que meus pais me deram em garoto. ( ) Esse livrito, colectânea de textos de vários físicos ilustre (que Rómulo escolhera e prefaciara) falava, ao que me lembro, mais de problemas em aberto do que de verdades rectangulares, e apontava o dedo, o dedo da física entenda-se, aos mistérios do mundo.
Acho que foi assim que decidi que a Física ia ser a minha profissão.
( ) António Gedeão veio nessa altura. Já não sei como, porque a sua voz poética parece estar connosco desde sempre: numa forma antiga transcreve uma liberdade fresca , com a ciência posta na cultura das palavras.
Mais tarde, adolescente, li espantado a «Física para o Povo», diálogo socrático de divulgação científica que sempre imaginei ter o lugar simbólico, matural e histórico- qualquer que fosse a «intenção» do autor ou a génese «real» da obra( ). (Aliás eu tenho para mim que foi António Gedeão quem escreveu esse livro).
Rómulo de Carvalho e António Gedeão são heterónimos de uma história sem dúvida complexa e reveladora que interessa estudar e compreender.
É provável que alguns deles encerrem ainda, embora homónimos, outra identidades.
Nesses autores e a atravessar a obra pedagógica, histórica, política, divulgadora que os sustenta gostaria apenas de sublinhar dois sentimentos fortes: o gosto pelo conhecimento e o poder da escrita.
Hoje que é, mais que nunca, imperioso lutar por uma cultura científica viva e crítica, estudiosa, partilhável e disponível, fonte de cidadania e de libertação, os livros de Rómulo de Carvalho são exemplos e guias.
Só não quero acreditar que António Gedeão morreu. Talvez esteja impedido de se pronunciar, como Jorge de Sena parecia sugerir em 68. Mas espero que nos ouça e, se puder e quiser, nos responda.
À pessoa que calmamente construiu esta obra exemplar e singular, culta e científica, neste século XX português, ( ) venho pois dar, com muito respeito, imensa curiosidade e alguma emoção, os parabéns amigos."
José Mariano Gago*
*Ministro das Ciências e Tecnologias
GAGO, José Mariano, in Jornal de Letras, Ano XVI, nº 680, 6 a 19 de Novembro, 1996
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