Museu Maynense

"A designação de «Maynense» atribuída ao Museu instalado na Academia das Ciências de Lisboa, deriva do nome do franciscano frei José Mayne, da Congregação da Terceira Ordem da Penitência, o qual desempenhou funções de Geral dessa mesma Ordem a partir de 1780, até à data da sua morte, em 1792. José Mayne, que teve papel destacado na vida social do seu tempo como confessor do rei, D. Pedro III, marido de D. Maria I, era homem de bens materiais que lhe provinham de herança familiar e dos serviços que prestava. Seriamente interessado em certos aspectos da cultura humanística e científica, decidiu, generosamente, mal tomou posse do seu cargo de Geral da Congregação, aplicar todos os rendimentos desses seus bens na aquisição de livros que enriquecessem a livraria do Convento em que habitava, o chamado Convento de Jesus, assim como na aquisição de "instrumentos phisicos" e também de "couzas raras e de História Natural" conforme se lê no documento em que Mayne apresenta a proposta da sua oferta à referida Congregação. Estes instrumentos e coisas raras de História Natural, assim vagamente referidos, iriam acrescentar-se a certo espólio já existente no convento de frei José Mayne pois, segundo o referido documento, tudo isso se destinava a "melhor aperfeiçoar o nosso museu", o que significa que já existia, no Convento, em 1780, um conjunto de peças consideradas de valor museológico. A história do Museu é, portanto, antiga.

Doze anos mais tarde, em 1792, já bem ajustado à sua função de Geral da Ordem, dispôs-se frei José Mayne a ampliar o âmbito da sua actividade cultural propondo a criação da primeira escola que funcionaria no seu próprio Convento com aulas públicas três vezes por semana, com a particularidade de ser dedicada, exclusivamente, ao Ensino da História Natural. Esta proposta que, sem necessária justificação, nos poderá causar estranheza resulta da posição filosófica assumida pelo padre José Mayne perante os rumores das alterações sociais que lhe chegavam lá de for a, particularmente de França, nesse final de século. Receando o enfraquecimento ou a adulteração dos sentimentos religiosos no comum dos humanos, pretendia o padre Mayne opôr-se aos destemperos da sua época promovendo o ensino da primeira História Natural que desse relevo e 2enfâseà obra do Criador, primeira História Natural Teológica, conforme ele próprio lhe chamou, por meio de cujo ensino se adquirissem "os conhecimentos dos Atributos Divinos, convencendo-se por este modo os Atheistas, Pulitheistas, e mais Incrédulos".

Para assegurar o funcionamento da sua projectada escola e a boa conservação do material, já abundante de que se compunha o Museu do Convento de Jesus (exemplares da História Natural, artefactos, pinturas, desenhos, livros e medalhas), propôs-se frei José Mayne que se nomeasse em tão recém criada Academia Real das Ciências de Lisboa para administradora de todos aqueles sem bens, atendendo que era aí, nessa instituição, da qual o próprio Mayne era sócio, que se congregavam as pessoas capazes de procederem, com eficácia, à execução do seu projecto.

Mayne faleceu nesse mesmo ano de 1792 e, sem demora, pressurosamente, ainda nesse mesmo ano, a Academia de Ciências dava início à projectada aula de História Natural, no Convento de Jesus, prosseguindo-a sem interrupções nos anos que se lhe seguiram.

Encontrava-se agora a Academia das Ciências de Lisboa, um tanto inesperadamente, na posse de um rico espólio de material didáctico, e não só, de duas origens: o do Museu Maynense, que lhe fora oferecido e aquele que ele próprio organizara, por empenho pessoal, à custa dos esforços dos fundadores da instituição, do duque de Lafões e da Correia da Serra. Nesse património, de sua privada coleccionação, incluíam-se, além dos habituais e mais acessíveis exemplares de História Natural, um precioso conjunto de material didáctico de Física Experimental, composto de mais de trezentas peças, e todos os apetrechos necessários ao funcionamento de um laboratório químico.

A instalação da Academia das Ciências em edifício próprio foi excepcionalmente laborioso. Mudando-se com frequência, de casa para casa, ao todo seis vezes, desde o ano da sua fundação, em1779, só em 1833 conseguiu conquistar um poiso definitivo o qual, por surpresas do acaso, foi exactamente o edifício do Convento de Jesus a que já estava ligada por longa tradição. Nas muitas andanças a que a Academia se viu sujeita, o seu material didáctico sucessivamente encaixotado e desencaixotado, acabou por se inutilizar, por se dispersar e por desaparecer, com excepção de uma dezena de peças destinadas à Física Experimental. Foi somente depois de instalada no Convento de Jesus, depois de ultrapassda a fase de mudanças de residência e de serenada a instabilidade da vida social sofrida nos anos de ocupação francesa e nos anos próximos seguintes perturbados com lutas políticas internas, que se tornou possível à Academia das Ciências pensar na instalação condigna do seu material museológico

O novo Museu, denominado Museu Nacional, ou Museu de Lisboa, abriu ao público em 1839 e, a despeito de quantas dificuldades se deparam aos seus organizadores, era digno de ser visitado. Nele se incluía, além do que o padre José Mayne deixara no seu Convento de Jesus e do que restava do antigo museu da Academia, o Museu de História Natural da Ajuda, o recheio mineralógico da Intendência das Minas e Metais do Reino, e outras muitas colecções de diversas origens. O número de peças museológicas atingiu valores excepcionalmente elevados, de muitos e muito milhares, de tal modo que as salas disponíveis do Convento já não chegavam para a sua condigna arrumação. As dificuldades surgidas para tantas, relevo para a falta de condições económicas que permitissem à Academia acudir a todas as despesas inerentes ao funcionamento do Museu, mormente com o seu indispensável pessoal, que se achou por bem ceder grande parte do seu recheio a outra instituição que o merecesse e dele tirasse proveito. Assim, em 1858, todo o material respeitante à História Natural, que era o de maior vulto, foi transferido para a Escola Politécnica, criada há duas décadas atrás, em 1837.

No que respeita à Aula, interrompida pelas razões já expostas, sempre se empenhou a Academia em continuá-la, o que dignamente cumpriu pouco depois de se instalar no Convento de Jesus. Passou então a designar-se Aula Maynense ou, com mais frequência, Instituto Maynense, dedicando-se apenas ao ensino da Zoologia conforme foi praticado durante os anos escolares de 1836-37 a 1848-49. Pretendia-se, deste modo, respeitar o desejo inicial de frei José Mayne mas as modificações da vida social já se lhe tinham tornado adversas. Já não se justificava que o objectivo da Aula Maynense fosse combater as ideias perigosas dos "Atheistas, Pulitheistas, e mais Incredulos", mas sim fornecer aos alunos que a frequentassem uma preparação escolar que lhes permitisse o acesso a determinadas profissões. Consciente de tal necessidade resolveu-se a Academia a alargar e reformular o âmbito do seu ensino. É assim que no ano escolar do 1849-50 recomeça a actividade da Aula Maynense com novo programa de estudos que, pela primeira vez, contemplava diferentes ramos da Ciência: a Física, a Química, a Geografia Física, a Geologia, a Minerologia, a Zoologia e a Botânica.

A Aula Maynense, segundo os novos moldes, funcionou no Convento de Jesus desde aquele ano escolar de 1849-50 até ao ano de 1918-19, já em pleno século XX, e muito se lhe ficou devendo no âmbito da actividade pedagógica nacional.

Para funcionamento da Aula Maynense nesta sua última fase, procedeu a Academia das Ciências à compra de diverso material didáctico, particularmente de Física, para ilustração experimental no decurso das aulas dessa disciplina. Parte desse material chegou até aos nossos dias e foi com ele que se organizou a secção de Física do novo Museu Maynense a que se refere o presente Catálogo. As peças que o compõem eram, ainda não há muitos anos, objectos correntes nos Gabinetes de Física dos Liceus portugueses mas, com o rodar dos tempos, tornaram-se objectos de museu, susceptíveis de despertarem a atenção dos visitantes.

Compõe-se a secção de Física do Museu Maynense da Academia das Ciências da Lisboa de um total de 233 peças, entre as quais se incluem 10 que não provêm da Aula reformada oitocentista mas que, segundo supomos, teriam pertencido aos primitivos Gabinetes de Física da Academia das Ciências, ainda do tempo do duque de Lafões, dos finais do século XVIII. Por felicidade chegaram até nós e agora repousam, ao fim de dois séculos, com possível dignidade no espaço aberto de um museu instalado no Convento de Jesus tão intimamente ligado à história dessa mesma Academia.

Ao recordarmos os diferentes passos da longa caminhada prosseguida pelo material que compõe o Museu Maynense, não queremos deixar de fazer referência ao Professor Doutor José Pinto Peixoto que tão apaixonadamente nos instigou e animou na instalação deste Museu com a sua competente autoridade no exercício das suas funções de Presidente da Academia das Ciências. Igualmente nos agrada registar o nome do Sr. Joaquim Luís Correia, do pessoal menor desta mesma Academia, a cuja perícia e boa vontade na execução dos mais diversos trabalhos, muito também ficou devendo a concretização deste Museu.

Rómulo de Carvalho

Director do Museu Maynense

(inaugurado em 5.XII.1991)

Prefácio de "Museu Maynense da Academia das Ciências de Lisboa", Publicações do II Centenário da Academia das Ciências de Lisboa, Lisboa, 1993

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