A morte de António Gedeão

Agora é melhor morrer...

Com estas palavras Rómulo de Carvalho, lúcido como sempre, explica que a morte de Gedeão significava que o autor havia tomado consciência de que já tinha dito tudo. De facto, esta atitude não poderia ser mais característica da concepção pragmática que tinha acerca do objectivo da sua poesia—ser útil: a partir de certa altura, repete-se tudo, então, já não vale a pena.

Diário de Notícias - Poemas Póstumos significam o fim da sua poesia?

Rómulo de Carvalho - Significou que o autor já havia tomado consciência (que nem todos os autores têm) de que já tinha dito tudo. Poderia tornar a escrever, mas para repetir. Especialmente na poesia, a partir de dado momento, os poetas passam a dizer as mesmas coisas.

D.N. - Será de mais repeti-las?

R.C. - Querendo ouvi-las de novo, torna-se a ler o que já está escrito. O meu conceito é esse: a partir de certa altura, repete-se tudo, então já não vale a pena.

D.N. - O pensamento e a capacidade esgotam-se?

R.C. - Se a vida da pessoa foi longe e teve tempo para dizer tudo, não lhe vão surgir sentimentos novos. Poderá variar a maneira de dizer. Isso para mim já não adiantava. De modo que resolvi morrer. Era melhor. Morri e cá estou.

In SILVA, Maria Augusta, Diário de Notícias, Ano 131, nº46006, 9 de Março, 1995

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