A.M. Nunes dos Santos

"(…) Rómulo de Carvalho é (…) o guia-mor, o timoneiro que nos ensina que a aprendizagem pode ser redescoberta, que a interdisciplinariedade deve ser cultivada e estimulada na nossa formação, que o prazer intelectual é o sopro vivo da ciência e que a verdadeira escola, apesar das suas crises, deve proporcionar não só o desabrochar dos talentos individuais como também, através da reflexão, uma melhor compreensão da humanidade. Aqui não se trata de fazer batota, apesar da grande amizade que lhe temos. Trata-se tão somente de afirmar que Rómulo de Carvalho é semente germinada no terreno árido (por vezes estéril) da cultura portuguesaa-científica e literária.

Descobrir Rómulo de Carvalho através da sua obra é fácil e entusiasmante. A exaltação e o grande fascínio de realizar a primeira experiência química, uma reacção elementar, o contacto com o material da bancada, o apalpar de provetas, tubos de ensaio, pipetas, buretas, cadinhos, o sentir a magia da mudança das cores dos líquidos e o inalar dos múltiplos cheiros, o estudo das propriedades e a identificação dos sais, ácidos e bases (e até a irreverência de provocar explosões violentas com o sódio), o despertar para esse mundo sagrado e secreto como alquimista aprendiz era, nos tempos da minha juventude, proporcionado por um livrinho de capa negra intitulado Guia de Trabalhos Prácticos de Química. E sobre aquela capa aí vi pela primeira vez o nome do autor.

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Hoje, em que o laboratório e o trabalho experimental foram secundarizados no ensino secundário, o seu lugar como poeta- um dos «melhores nomes da poesia portuguesa contemporânea, pela originalidade e pela admiração», como afirma Jorge de Sena no exímio prefácio às Poesias Completas, de António Gedeão- permanece em destaque, ofuscando, por vezes, o obreiro preserverante da sedução da descoberta de um mundo novo, das explicações fantásticas da inteligibilidade do mundo físico e das fontes de artes sagradas, como é a Química.

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As condições de vida do homem deste século são, em grande parte, determinadas pela evolução das ciências, experimentais e das técnicas. Contudo, esse papel crucial na dinâmica da transformação da sociedade não tem diminuído o divórcio trágico entre a utilização de uma aparelhagem sofisticada ou um bem de consumo e a compreensão e o despertar para a descoberta do mundo escondido que está na base do seu fabrico. E a indiferença é tão grande que se pode mesmo apelidar de analfabetismo científico, ou pelo menos de uma incultura científica, o que acontece na sociedade no seu conjunto.

Se se olhar atentamente para a obra de Rómulo de Carvalho vê-se o cunho pessoal de ir contra essa corrente generalizada, de ir ao encontro de uma dimensão cultural, educativa e reflexiva de âmbito geral, de não reclamar qualquer privilégio para a cultura científica, mas antes, pelo contrário, inseri-la no seio da comunidade e de a alfabetizar como chave de uma democratização de índole tecnológica.

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Mas mais importante que quaiquer comentários e notas é ler e reler a sua obra, é sentir o uso, a força e a excelência da sua linguaguem, as imagens claras, a alacridade às novas ideias que converterão, sem dúvida, os leitores a apaixonarem-se pela ciência. Por isso lhe estamos gratos."

A. M. Nunes dos Santos*

*Professor catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologias da Univesidade Nova de Lisboa

NUNES DOS SANTOS, in Jornal de Letras, Ano XVI, nº 680, 6 a 19 de Novembro, 1996

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