Aspecto político

Rómulo de Carvalho sempre determinou lúcida e conscientemente a sua conduta. O desencanto acompanhou-o desde muito novo, bem como a descrença na natureza humana, facto que o levou a valorizar, sempre e cada vez mais, a sua independência face a pessoas e instituições. Assim, apesar de sempre ter sido um animal político, nunca o manifestou publicamente, isto é: nunca votou, nunca aderiu a movimentos ou assumiu qualquer atitude política e pública. Apesar disso, colaborou, por exemplo, com Bento de Jesus Caraça, numa época em que o investigador era perseguido pelo regime; satirizou a ditadura em desenhos; e escreveu poesia, depois feita hino da libertação de um povo.

"Diário de Notícias - Nunca foi tentado por nenhum Poder?

Rómulo de Carvalho - De maneira nenhuma, e tive-os ao alcance da mão. Só aceitei actividades em que fosse eu próprio a fazer aquilo que dirigia.

(…)

Eu não tive nenhuma limitação na minha liberdade de expressão.

DN - Não sentia que outros sofreram essa limitação?

R.C. - Senti, mas não como um caso especial. A não liberdade de expressão era uma das limitações como muitas outras de que a Humanidade padece. Pessoalmente nunca fui limitado na minha expressão; Nunca tive nenhum livro de poemas proibido e disse tudo o que tinha que dizer.

(…)

DN - Quando escreveu «Calçada de Carriche», não sabia que estava a ser a voz de tantos cansaços, abandonos e revoltas oprimidas?

R.C. - Tive consciência disso e foi feita de propósito, com o desejo de ser útil. Mas não pode concluir-se que as pessoas que recebem essa mensagem a aceitem e fiquem comovidas ou sejam capazes de criar um mundo melhor."

In Jornal Diário de Notícias, Ano 131, nº 46006, 9 de Março, 1995.


"Jornal de Letras- Ao longo da sua vida, sempre se manteve um pouco à margem, sem interferir directamente em nada. Porquê essa atitude?

R.C. -Nunca quis, de facto, interferir em nada, apesar de ter sido convidado para muitas coisas em diversas ocasiões. Dentro das minhas capacidades, apenas quis intervir naquilo em que podia ser útil para um determinado grupo de pessoas.

(…)

JL - Nunca teve problemas com o anterior regime?

R.C. - Por estranho que pareça, nunca tive nenhum aborrecimento. Alguém me disse até que o almirante Américo Tomás gostava muito da minha poesia (ri-se). E a minha poesia publicada nessa altura tinha muitos aspectos que podiam fazer torcer o nariz aos pides. Mas nunca me incomodaram. Apenas retiveram a minha peça de teatro, «RTX», para apreciação. Não sei lá é como os polícias a apreciaram…(ri-se)."

in Jornal de Letras, Ano XVI, nº 680, de 6 a 19 de Novembro, 1996

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