Poemas Póstumos

Em 1984, o lançamento de Poemas Póstumos assinala a morte de António Gedeão. O poeta morre, tal como nasceu, pelas mãos do seu criador— Rómulo de Carvalho.

"Em «Poemas Póstumos», Gedeão manifesta amiúde certo gosto pelo epigrama e pelo aforismo e até roça às vezes pelo maneirismo, através de caprichosas antíteses, como no esplêndido «Poema das Coisas», onde compara ironicamente o homem e a pedra à fugacidade do amor. Continua a dar-nos poemas de vibração colectiva, mas as suas tonalidades tornam-se com frequência mais escuras e o tecido lírico é invadido por um certo cepticismo. Lembro o triste, terrível «Poema do Amor Fóssil» (Poemas Póstumos), com o seu advertido receio de insensibilidade do mundo cibernético. Um dos poemas capitais desta segunda fase de António Gedeão é o doloroso «Poema sem Esperança», onde o sujeito poético conta ter simulado por vezes, como um médico, como um soldado, mais esperança do que aquela que sentia. É a hora das últimas confissões: «Era uma esperança imposta, necessária / para as voltas dos dias e das noites.» Mais complexo e contraditório nos surge o poeta, agora na sua total humanidade. Num dos seus poemas mais delicados, «Poema do Menino do Higroscópio», Gedeão apresenta-nos a natureza sensualizada pelo pólen, cujos grãos buscam o óvulo. É a pintura da Primavera eterna, em que palpita o desejo, real ou imaginário, dos namorados.

Ao optimismo do século XIX, à sua crença ilimitada no progresso, sucede neste final do século XX, uma habituação ao pesadelo.

(…)

Hoje, perante as desigualdades, o desemprego, as monstruosidades sociais e intercontinentais que estão nascendo dos modelos da globalização, sob a tutela de um pensamento único - o do neoliberalismo venerador do dinheiro acima de tudo, sentimos a falta de mais vozes como a de António Gedeão, que se calou após os seus Poemas Póstumos»."

Urbano Tavares Rodrigues

TAVARES RODRIGUES, Urbano, "Decifrados do mundo, Alquimista do sonho", in Jornal de Letras, Lisboa, 26 de Fevereiro, 1997

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