Rómulo de Carvalho, professor e mestre

"Ensinar é tornar as coisas mais comuns do mundo em objectos de contemplação e reflexão. Precisamos de transformar tudo o que nos rodeia, tudo o que é estranho - e no entanto parte da nossa realidade - num desejo real de compreender"

Rómulo de Carvalho

GEDEÃO, António, 51v 3 poems and other writings, organizado por A. M. Nunes dos Santos, 1ª edição, Viseu, FCT da Universidade Nova de Lisboa,1992, 11p.


"Ensinar é uma mágica. Porque não se trata de transmitir conhecimentos, ou de desfiar um rosário de informações. O que está em causa, no ensino das ciências, é suscitar a curiosidade, é fomentar a imaginação, usando como ferramenta uma conjectura que se propõe ao aluno, que a ele adere, recriando-a, porque a «descobre». E é gerar confiança nessa capacidade de conjectura que constitui a essência do processo de aprendizagem.

É claro que para que se crie o gosto de aprender será preciso fornecer bases que permitam ao aluno confiar na sua habilidade para conjecturar. Será preciso estimulá-lo ao princípio, encaminhá-lo nalgumas voltas do caminho mais tortuosas, adverti-lo dos riscos que poderão ser assumidos, reconhecer-lhe o esforço despendido. No caso do ensino de uma ciência, o despertar desse gosto passa pela partilha da cultura da experimentação. E isto porque a maneira de validar e de dar sentido às conjecturas que revelam de um domínio científico assenta no apuramento da prova empírica.

O dom de experimentador e demonstrador dos desígnios da natureza distinguiu Rómulo de Carvalho. As suas aulas de laboratório eram sempre de uma riqueza não antecipada. Pelo modo como percebíamos o funcionamento das experiências e, ao mesmo tempo, as suas limitações. Ou o seu enquadramento. Ou as histórias humanas ligadas às grandes experiências «clássicas» que motivavam a respectiva aula.

Com Rómulo de Carvalho, a física transformou-se para mim num corpo de conhecimentos de enorme importância quer para o entendimento da vida quotidiana quer para a compreensão da nossa posição da nossa posição no cosmos; os seus conceitos, as grandezas físicas, e as suas relações, as leis da natureza, surgiam com a força da têmpera humana que as tinha criado, discutido e aplicado; o edifício lógico e harmonioso que acolhia a formulação matemática das grandes simetrias do universo ia progressivamente exercendo o seu poderoso fascínio sobre a minha mente de adolescente à medida que, pela mão segura de Rómulo de Carvalho, nele ia penetrando. E assim ia sucedeu durante quatro, até terminar o liceu.

Devo dizer que a necessidade de procurar o significado físico das coisas nunca mais abandonou. Certamente porque a confiança no prazer dessa «experiência de descoberta», que foi tão grande no seu início, induziu a sua prática sistemática, criou uma marca, um procedimento de escolha face às incertezas do futuro. Somos também, inescapavelmente, o que aprendemos."

João Caraça

Instituto Superior de Economia e Gestão

CARAÇA, João, in Gazeta de Física, Experimentação e Aprendizagem nas ciências, Vol.20, Fas.1,s.l., Janeiro/Março, 1997

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