Religião
"Rómulo de Carvalho - ( ) E tenho estado também pronto a olhar o mundo como uma possibilidade de redenção sem nenhum toque de religião.
Diário de Notícias - Agnóstico ou ateu?
R.C. - Ateu é já acreditar em alguma coisa. Sou agnóstico. Não sei se a palavra dirá bem o que sou, mas será a melhor.
DN - A sua poesia não representa já de si uma espécie de religião?
R.C. - Alguém pode considerá-la assim. Não digo que não.
( )
DN - Quem poderá responder à dúvida de quando começou o universo?
R.C.- Um assunto que está dentro do meu agnosticismo. Não posso perguntar quem fez o universo a não ser que me convencesse de que seria razoável fazer a pergunta. A pergunta só faz sentido dentro das nossas limitações humanas, em que sabemos que tudo quanto vemos foi feito, o rio Tejo, a cadeira, o candeeiro. Esquecendo as nossas limitações, estendemos isso ao universo e então pensamos: o universo teve de ser feito. E eu pergunto: Mas porquê? Que nos leva a dizer que foi assim?
DN - Porque existe
R.C. - É outra maneira de pôr a questão. Porque existe teve de ser feito. Quem garante que tudo o que existe teve de ser feito? Muitas das coisas que vemos foram fabricadas, muito bem, e as outras? Porventura o Tejo ou a Serra de Sintra sempre existiram?
DN - Criaram-se em algum momento .
R.C.- E foram criados assim como são?
DN- Rende-se à teoria de Lavoisier de que nada se cria, nada se perde, tudo se transforma?
R.C.- Tudo se transforma e tudo se destrói. O nosso planeta também há-de desaparecer.
( )
DN - Descrê na ressureição?
R.C.- Como animais, morremos e acabou-se. Mas, o ser humano não se conforma com isto."
In Diário de Notícias, 9 de Março de 1995, Ano 131, nº 46006
Jornal de Letras - E o princípio de tudo?
R.C.- Para mim é tão complicado imaginar a criação de uma floresta como a de um único átomo. Claro que a maioria das pessoas resolve a situação, imaginando um deus criador que chegou e disse: «Faça-se o mundo». O Homem, por natureza, tem necessidade de acreditar em deuses O mal é que algumas organizações se apoderem desses deuses criadores.
JL - E o Rómulo de Carvalho?
R.C. - Até posso dizer que os desculpo (ri-se). Não posso compreender. Não acredito nem deixo de acreditar Não sei.
JL - É agnóstico?
R.C. - Completamente. E morro tranquilo.
JL - Mesmo sem a esperança da vida eterna
R.C.- Isso era uma maçada muito grande (ri-se). Já basta esta.
In Jornal de Letras, Ano XVI, nº 680, de 6 a 19 de Novembro de 1996
[ CITI ]