Rui Namorado Rosa

"Conheci pessoalmente Rómulo de Carvalho em 1970, a propósito do reinício da publicação da «Gazeta de Física», fundada em 1946 por Armando Gilbert (…). Éramos investigadores, docentes universitários e docentes do ensino secundário unidos nesse propósito de contribuir para a melhoria do ensino da Física, sobretudo no ensino liceal. Rómulo de Carvalho encabeçou naturalmente a comissão de redacção, pelo prestígio que naquela matéria, já àquela data, sobejamente se lhe reconhecia.(…) Não me esqueço da natural autoridade que advinha do seu conhecimento profundo, da disponibilidade perante os outros, pela disciplina no trabalho e pela persistência nos propósitos.

Esta colaboração terminou em 1974 - por sinal, o último número da«Gazeta de Física» publicado nessa série foi o de Abril de 1974 - não por força de alguma convulsão política no seio da comissão de redacção mas sim pela importante razão de se ter constituído então a Sociedade Portuguesa de Física. Reflexo seguro de fundas mudanças sociais que atravessaram o antes e o após 25 de Abril.

(…) O meu reencontro com Rómulo de Carvalho é bastante mais recente. Faz agora (1996) dois anos que surgiu entre professores da Universidade de Évora o desejo de homenagear aquele cidadão exemplar e intelectual multifacetado e decidiu-se propor a atribuição do grau honorífico de Doutor Honoris Causa, reconhecimento máximo que a universidade pode atribuir. (…) Creio ser justo se disser que os autores da proposta, ao coligir os elementos necessários à sua fundamentação, terão ficado surpreendidos com a riqueza, variedade e extensão da obra do homenageado. (…) Independentemente da sua área científica, muitos foram os que tiveram o seu contributo pessoal para oferecer, porque muitos foram os que, desta ou daquela forma, haviam sido tocados pela personalidade e pela obra de Rómulo de Carvalho.

O acto académico em que a Universidade de Évora se honrou ao homenagear e acolher no seu seio o professor Rómulo de Carvalho aconteceu a 8 de Junho de 1995.

(…)Desejo concluir esta nota com a evocação da obra poética de Rómulo de Carvalho, aliás António Gedeão. Nos anos 60, período de convulsões e perplexidades, particularmente doloroso em Portugal, os seus poemas foram particularmente lidos, recitados em saraus entre estudantes, musicados em baladas e levados ao povo. «Poema a Galileu» e «Pedra Filosofal" marcaram a minha geração, contribuindo para fazer um futuro melhor. A sua poesia é reconhecida pela sua segurança artística, originalidade e impacte imediato.

Creio que Rómulo de Carvalho realizou a rara síntese entre saberes diversos, fertilizando-os nesse cruzamento, construindo uma obra original tanto na vertente científica como artística. Rómulo de Carvalho e a sua obra são excelente pretexto de reflexão sobre a criação artística e a científica, a relação entre o afectivo e o cognitivo e entre o pessoal e o social, a epistemologia e a semiótica da aquisição e comunicação de saberes. E são também a prova comprovada que é possível e vale a pena ter valores cívicos, ser-se culto e contribuir para a cultura, numa sempre renovada dimensão humanista da pessoa e do cidadão."

Rui Namorado Rosa*

*Vice-Reitor da Universidade de Évora

NAMORADO ROSA, Rui, in Jornal de Letras, Ano XVI, nº 680, 6 a 19 de Novembro, 1996

 

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