Simbologia

"A veia de António Gedeão é órfica na busca da melodia e do ritmo e em parte por isso, mas sobretudo pela força e generosidade da mensagem, virá a ser mais tarde cantado por Manuel Freire e Carlos do Carmo, «Pedra Filosofal» pode considerar-se, no seu género, uma obra-prima, pela fluidez, pelas sonoridades luminosas, pela singeleza dos arranjos sintácticos e rítmicos, lineares, sem transportes, pela riqueza e originalidade das enumerações que lhe dão a respiração, a robustez e o alento, a força motriz, com qualquer coisa de primitivo, mas também de sofisticado, num trajecto que percorre a história da epopeia humana.

Neste extraordinário poema, que é um cântico ao sonho, associado à ideia de progresso, combina-se a terminologia científica e a técnica (a cisão do átomo, o radar, o alto-forno, a geradora, o foguetão que desembarca na superfície lunar), com o vocabulário bucólico tradicionl (o ribeiro manso, os pinheiros altos), e ainda com a surpresa de certas antíteses e imagens (os serenos sobressaltos, as aves que gritam em bebedeiras de azul). A epopeia humana a que me referi inclui, decerto, privilegiadamente a aventura marítima dos portugueses; e as longas enumerações que estruturam o poema, após a descrição do locus amenus inicial, não deixam de incluir a rosa dos ventos, as caravelas e o infante, o Cabo da Boa Esperança, vários dos tópicos comuns a Camões e a Fernando Pessoa. Curiosamente o mestre trovador que é Gedeão escolhe como metro favorito a redondilha maior. Muito ligado à poesia dos cancioneiros medievais e ao romanceiro popular, consegue veicular no esquema aparentemente pobre do heptassílabo a grandeza da sua cosmovisão, em que o homem, o «animal aflito» que ele nos apresenta logo no começo do Movimento Perpétuo, vai reger ao longo dos séculos, entre civilização e barbárie, a poderosa orquestra do conhecimento ou, por outras palavras, vai dissipando as sombras, os véus que ocultavam a realidade, gerando assim novas artes e saberes, novas máquinas, dominado a Natureza, cobiçando o império do Universo."

Urbano Tavares Rodrigues

TAVARES RODRIGUES; Urbano, "Decifrados do mundo ,Alquimista do sonho" in Jornal de Letras, ,26 de Fevereiro, 1997

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