Teatro do Mundo
Quando António Gedeão, em 1956, começou a publicar os seus versos, estava já humana e esteticamente amadurecido. No entanto, ou por isso mesmo, nos primeiros volumes que depois trouxe a lume, observa-se um desdobramento em diferentes direcções: cada livro tem uma fisionomia própria. (...) Teatro de Mundo (cujo título, por adequado, é já revelador), prolongando esse lirismo reflexivo, distingue-se [de Movimento Perpétuo] todavia por certa despersonalização ou alteralidade dramática, em composições como a vicentina "Fala do Homem nascido", logo no início da colectânea, o "Poema da malta das naus", o "poema do homem-rã", canto eufórico das vitórias do Homem sobre a Natureza ("Não há temores que me domem. /É tudo meu, tudo meu"), e outras, descritivas, de alacridade exterior ("Adeus Lisboa", "Saudades da Roseta") em contraste (que se adivinha lúcido, gravemente irónico) com a tristeza consubstancial, a dúvida, o desengano, o sentimento do efémero que ensombram os poemas subjectivos, de tom menor. Expande-se, jucundo, o amor da vida, ou simplesmente o amor ("Rosa branca ao peito"; "Cavalinho, cavalinho"). Há até, dentro da tradição poética nacional, ecos de epopeia e de aventura marítima, num comprazimento culto e sentido consciente de lusitanidade ("Adeus, Lisboa", "Poema da malta das naus": "Não se nasce impunemente /nas praias de Portugal").
In PRADO COELHO, Jacinto, Ao Contrário de Penélope, 1ª edição, Livraria Bertrand, 1976, 279p.
[ CITI ]