União Ciências e Humanidades

" Foi ele quem veio estabelecer, com a sua poesia, um espaço de cociliação, de inter-relação dinâmica entre a cultura literária e humanistíca, por um lado, e o conhecimento científico, por outro. Como sãbio, como alquimista - dos minérios e do verbo - vem António Gedeão, com Movimento Perpétuo, em 1956; com Teatro do Mundo, em 1958; com Máquina de Fogo, em 1961, superar o verdadeiro abismo que existia (e afinal continua a existir, salvo raras excepções) entre esses dois domínios. Os seus poemas lírico-didácticos, de constatação das coisas, de explicação dos fenómenos conseguem a fusão das duas atitudes habitualmente separadas; a sua viva inteligência, a sua palavra serena penetram a mecânica do mundo físico e criam os seus correlatos no jardim das ideias e das sensações.

(…)

A obra poética de Gedeão constrói, através da beleza de conceitos e das analogias e da música do verso, uma leitura da Terra, dos reinos animal, vegetal, mineral, em que estão presentes, explícita ou implicitamente as lições de Copérnico, de Galileu, de Lavoisier, Newton, Darwin, Einsteein, como estão, de certo modo, as descrições de Ovídio e de Lucrécio. Propõe-nos simultaneamente essas duas maneiras de olhar e decifrar o visível e o invisível - o mundo e a vida como sucessão de fenómenos fisícos, intelectualmente atingíveis pelas operações mentais e pela química emocional."

Urbano Tavares Rodrigues

TAVARES RODRIGUES; Urbano, "Decifrados do mundo ,Alquimista do sonho" in Jornal de Letras, ,26 de Fevereiro, 1997

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