Utilidade da poesia

Rómulo de Carvalho/António Gedeão demonstrou como ninguém a utilidade do exercício da cidadania. A sua faceta de pedagogo revelou-se nos livros científicos que se tornaram referências, conseguindo tornar acessíveis temas e problemas bastante complexos. Mas foi sobretudo enquanto poeta que a sua mensagem mais tocou numa sociedade onde a Liberdade não era nunca um direito mas sempre um privilégio. A sua razão era a cidadania onde os homens fossem humanos e a sua paixão era a liberdade de espírito. No seu sonho, insurgiu-se contra as atrocidades e injustiças, manifestando o desejo de mudar o que estava mal, de sacudir os medos, de transpor marasmos, de avançar para um espaço de liberdade e utopia. Ou não fosse ele o autor de uma das mais emblemáticas frases da Literatura Portuguesa:

"Eles não sabem, nem sonham,

que o sonho comanda a vida,

que sempre que um homem sonha

o mundo pula e avança"

"Diário de Notícias - Diz num poema seu: "Tenho vergonha de existir." Porquê, depois de criar uma obra poética como a de António Gedeão e, paralelamente, outra como a do Professor Rómulo de Carvalho?

Rómulo de Carvalho - Ainda bem que fui útil. O primeiro desejo da minha vida foi o de ser útil em tudo o que fizesse. (…) A minha estrela polar é esse desejo inatingível da Humanidade melhorar nos sentimentos e na forma de actuar.

DN - Como se luta por uma coisa que diz inatingível? Ou o seu subconsciente acredita?

R.C - Não acredita. São fraquezas. Teimosias.

(…) D.N. - Quando aos 50 anos decide transmitir a sua poesia, tinha já a certeza de que chegava aos outros?

R.C. - Sentia a esperança de que essa poesia pudesse ser útil a quem a lesse; que lhe aliviasse as preocupações e lhe desse alguma orientação.

DN - Assume a sua poesia com um método pedagógico?

R.C. - Não fica mal dizer assim. Um método pedagógico está bem."

In Jornal Diário de Notícias, Lisboa, nº46006, ano 131, 9 de Março, 1995.


"Expresso - Porque é que só então achou que poderiam ser úteis aos outros?

R.C. - Vi a notícia dum concurso de poemas num jornal e perguntei a mim mesmo se não seria uma oportunidade de os apresentar. O júri era presidido pelo Gaspar Simões, a pessoa mais considerada na crítica literária na época. Passou-se o tempo e recebi a informação de que tinha sido apurado. Um pouco inesperadamente, o Miguel Torga concorreu e foi ele que ganhou. Quando a notícia veio no jornal ainda lá estava o meu nome. O que me chocou mais foi ver o Rómulo de Carvalho naquela posição e escrevi ao Gaspar Simões a dizer «olhe, vou arranjar um pseudónimo».

Exp - O que é uma poesia útil?

R.C. - É normal as pessoas terem interrogações perante a vida. Ao lerem um poema podem sentir-se mais fortes para continuar a lutar.

Exp - Politicamente?

R.C. - Com certeza, no sentido de «polis». Tanto no mundo actual como no que me é conhecido através da História, tenho encontrado sempre um grande desequilíbrio nas relações entre as pessoas. Reduzindo-nos à poesia, vejo que é sempre uma forma de luta que o público em geral não conhece. (…) Vejo uma luta permanente do homem contra as maldades e malícias do meio que o cerca para modificar a sociedade dando-lhe um sentido mais humano. Humano o homem afinal, visto doutra maneira, é o exemplo do que é desumano.

(…) O comum das pessoas pensa que as coisas têm de ter um limite: o limite é onde termina o que conhecemos.

Exp - Então vale a pena ser útil?

R.C. -Vale a pena ter consciência disto, porque esta consciência sossega, não assusta. Não conduz a pessoa ao suicídio, nem à amargura. Nem à resignação. É uma forma lúcida de não perceber coisa nenhuma. Não tenho medo nenhum da morte."

In Jornal Expresso, 4 de Junho, 1994


"Jornal de Letras - O que era então para si escrever poesia?

R.C. - Uma necessidade muito íntima da pessoa se queixar daquilo que sente. Mas claro que quando as pessoas se queixam muito se tornam maçadoras…Acabam por incomodar os outros.

(…)

JL - Mas se a sua poesia tinha em si essa vontade de ser útil, uma perspectiva didáctica como se pode verificar, por exemplo, em «Poema para Galileo»…

R.C. - É certo. Mas a poesia que está publicada já é suficiente para dar satisfação aos que precisam desse auxílio.

(…) JL - Seja como for, a sua poesia, para além de uma forte dimensão social, é marcada por uma visão do mundo do ponto de vista da Ciência?

R.C. - Exacto. Eu servi-me da minha preparação científica para a introduzir na poesia. Com toda a naturalidade, porque sentia as duas tendências. E assim podia tocar toda a gente.

in Jornal de Letras, Ano XVI, nº 680, Lisboa, 6 a 19 de Novembro, 1996

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