A Liturgia do Sangue

Caminharemos de olhos deslumbrados

E braços estendidos

E nos lábios incertos levaremos

o gosto a sol e a sangue dos sentidos.

Onde estivermos, há-de estar o vento

Cortado de perfumes e gemidos.

Onde vivermos, há-de ser o templo

Dos nossos jovens dentes devorando

Os frutos proibidos.

No ritual do verão descobriremos

O segredo dos deuses interditos

E marcados na testa exaltaremos

Estátuas de heróis castrados e malditos.

(...)

Ó deus do sangue! deus de misericórdia!

Ó deus das virgens loucas

Dos amantes com cio,

Impõe-nos sobre o ventre as tuas mãos de rosas,

Unge os nossos cabelos com o teu desvario!

Desce-nos sobre o corpo como um falus irado,

Fustiga-nos os membros como um látego doido,

Numa chuva de fogo torna-nos sagrados,

Imola-nos os sexos a um arcanjo loiro.

Persegue-nos, estonteia-nos, degola-nos, castiga-nos,

Arranca-nos os olhos, violenta-nos as bocas,

Atapeta de flores a estrada que seguimos

E carrega de aromas a brisa que nos toca.

Nus e esnsaguentados dançaremos a glória

Dos nossos esponsais eternos com o estio

e coroados de apupos teremos a vitória

De nos rirmos do mundo num leito vazio.

 

in SANTOS, Ary dos, A Liturgia do Sangue, Lisboa, 1963.

 

Apontamento sobre a Liturgia do Sangue, Figueiredo Sobral, in SANTOS, Ary dos, Vinte Anos de Poesia, Lisboa, Distri Editora-Sociedade Editora, 1983.

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