O Amor

À semelhança de Camões, com quem tantas vezes se compara, também Bocage frequentemente canta o amor nos seus poemas revelando a importância que lhe atribuía.

Nascemos para amar; a Humanidade

Vai, tarde ou cedo, aos laços da ternura.

Tu és doce atractivo, oh fermosura,

Que encanta, que seduz, que persuade.

Existe uma força misteriosa, decerto filha do instinto, que tem o condão de precipitar o simples mortal num supremo deleite ou, pelo contrário, num tormento indescritível. O homem, sob o jugo desse autêntico tirano, revela-se impotente para resistir à intensidade de um impulso tão avassalador e atribui-o à força do destino. É nessa atitude passiva, semi-irresponsável que a fragilidade do barro humano mais se acentua.

Marcado pela infelicidade, Bocage, mesmo ao falar do amor, é o profeta da desgraça, predestinado ao infortúnio, pelas forças que lhe são superiores e que o dominam como uma marioneta.

Quantas vezes, Amor, me tens ferido!

Quantas vezes, Razão, me tens curado!

Quão fácil é de um estado a outro estado!

O mortal sem querer é conduzido!

Ao longo da sua curta vida conheceu toda a espécie de amores, que tão depressa o levavam ao delírio como o deixavam tombado na mais profunda frustração. Foi o boémio que cantou e cultivou em plenitude o amor carnal, constituído pelo efémero do prazer dos sentidos.

Nos torpes laços de beleza impura

Jazem meu coração, meu pensamento

Embora se encontre presente em alguns poemas um amor sonhado, apenas entrevisto, um amor-burguês no aconchego de um lar, é muito mais o amor tortuoso, violento e doentio que alastra em rubras labaredas de paixão que sobressai na sua obra, aliado não poucas vezes ao ciúme que o devora.

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