A boémia

A vida de Lisboa não foi propícia ao temperamento irrequieto de Bocage, incapaz de qualquer disciplina, como ele próprio se definiu: "Incapaz de assistir num só terreno,/Mais propenso ao furor que á ternura".

Assim, quando se mudou de Setúbal para Lisboa, à frequência da Escola da Armada, Bocage preferia a dos botequins e era no Café Nicola e no Botequim das Parras, no Rossio, que encontrava o ambiente estimulante a todos os desregramentos da boémia.

Regressado do Oriente, enraivecido pelo seu triste destino, ensombrado pelo abandono da sua amada Gertrudes, dedica-se a práticas de dissipação material e espiritual num desenfreamento de sentidos e numa inquietação tão grande de inconformismo moral e religioso que se lhe tornavam impossíveis qualquer ordenação de vida ou qualquer esforço que o mantivesse num rumo sério.

No Café Nicola, de Lisboa, a que está tão indissoluvelmente ligado o nome de Bocage, existem quadros evocativos da vida do poeta, dividido entre o ruído das tertúlias e a nostalgia de outra vida.

Neste quadro, Bocage invoca os prazeres do campo na companhia da amada.

 

Alia a todos estes excessos de vida a composição de versos "venenosos" que levam o intendente Pina Manique a mandar proceder a uma devassa à vida de Bocage - "que é desordenado nos costumes" e "não conhece as obrigações de religião que tem a fortuna de professar". O poeta é conduzido à prisão, de onde é transferido para o hospício dos Oratorianos.

Quando sai é outro Bocage, minado pelos mais de vinte anos de genebra e de noitadas, consumido pela doença, mas regenerado dessa anterior vida de excessos. Nos últimos dias da sua vida será auxiliado pelos amigos que o amparam.

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