Camões
O próprio Bocage nos aponta nos seus versos a sua admiração pelo poeta quinhentista e manifesta a sua pequenez face ao grande clássico:
Invejo-te, Camões, o nome honroso;
Da mente criadora, o sacro lume,
Modelo meu tu és... Mas, ó Tristeza!
Se te imito nos transes da ventura,
Não te imito nos dons da Natureza.
Faltou a Bocage, sobretudo, e de acordo com inúmeros dos seus críticos o "honesto estudo", que o seu grande modelo juntara ao "engenho" e à "longa experiência" e faltaram-lhe ainda os estímulos da época, que não lhe foi a adequada.
Talvez o que Bocage admirasse realmente em Camões fosse o lado "romântico", num sentido amplo da palavra, da sua vida, do seu "fado", e o seu temperamento individualista e inconformista, no que sentia alguma semelhança consigo próprio: ambos incompreendidos, votados ao esquecimento, marginais perseguidos pela sociedade:
Camões, grande Camões, quão semelhante
Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!
O poeta quinhentista sugere-lhe poesia e serve-lhe de termo de comparação, ainda que o arrebatamento de Bocage transponha as barreiras do mais romântico dos clássicos:
Adamastor cruel! De teus furores
Quantas vezes me lembro horrorizado!
Oh monstro! Quantas vezes tens tragado
Do soberbo Oriente os domadores!
Enquanto o romantismo de Camões foi espartilhado pelo domínio da razão, que o classicismo impunha, Bocage o poeta do Amor e da Liberdade consegue sacudir as razões da razão e, embora espartilhado na forma, dá livre curso ao potencial emotivo que o seu Eu possuía.
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