A Crítica (pessoal e social)

Arrebatado como foi em tantos momentos da sua vida, Bocage desconhecia qualquer moderação e o próprio vocabulário de que se serviu foi igualmente violento e cáustico.

Não admite, no entanto, qualquer crítica dirigida a si próprio e aos que se atrevem a fazê-lo não os poupa à sua sátira; veja-se o soneto que dirige a alguém que discordava do seu modo de ser poeta:

Ilustração de Lima de Freitas para o soneto Cara de Réu (Obras Escolhidas de Bocage, por Hernâni Cidade, Lisboa, 1969)

 

Cara de réu, com fumos de juíz,

Figura de presepe ou de entremoz

Mal haja quem te sofre e quem te fez,

Já que mordeste as décimas que fiz.

Mas as suas sátiras mais violentas e insultuosas são as que de modo impiedoso e grosseiro dirige a todos os membros da Nova Arcádia, caricaturando-os em todos os pormenores que não escapam ao seu talento e zombaria:

Vós, oh Franças, Semedos, Quintanilhas,

Macedos e outras pestes condenadas;

Vós, de cujas buzinas penduradas

Tremem de Jove as melindrosas filhas.

Este sentido deformador, mas revelador do seu egocentrismo, chegou a levar o poeta a traçar de si próprio o retrato físico e moral, que nada tem de lisonjeiro no soneto: "Magro, de olhos azuis, carão moreno..."

Às vezes a sua crítica é positiva como quando louva alguns poetas seus contemporâneos:

Encantador Garção, tu me arrebatas,

Audaz vibrando o flectro venusino,

Suave Albano, delicado Alcino,

Musas do terno Amor, vós me sois gratas.

Inadaptado numa sociedade mesquinha e sem horizontes Bocage não podia ficar indiferente à sua cultura tradicional e bafienta, ao seu convencionalismo retrógrado e asfixiante e, a seu modo, manifestou-se contra a ideologia política e religiosa da época.

Pelas suas críticas mordazes é perseguido, chegando mesmo a permanecer alguns anos na prisão.

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