O Destino

Certas composições de Bocage reflectem a consciência da responsabilidade humana, como por exemplo, quando afirma que "o nosso temperamento é o nosso fado".

Arrebatado, libertino, boémio, desconhecendo qualquer forma de moderação, permanentemente inadaptado, Bocage cantou frequentemente nos seus versos o seu destino trágico.

A sua recusa de seguir por caminhos fáceis que induziam a uma existência prosaica, dentro da ordem estabelecida saiu-lhe cara. Como o próprio poeta nos diz: "... é mais triste que vós, minha tristeza ..."

A sua fortuna é, em inúmeros aspectos, semelhante à do grande Camões com quem tantas vezes estabelece paralelo: uma vida triste, de desamor pelos outros e por si próprio, uma sensibilidade de excessos, debatendo-se continuamente em momentos de doentia impaciência, em apelos de angústia, devorado pelo ciúme e pela dor, sentindo-se no mais fundo do seu Eu votado a um desolado abandono, mesmo até por Deus.

Por mais ardentes preces que lhe faço,

Meus ais não ouve o númen sonolento.

E então, em momentos assim, é a morte que lhe surge como libertadora desta condenação do destino.

Poder vem perto que mude a sorte;

Lá tens o teu regresso... E nisto aponta;

Olho rapidamente e vejo a Morte.

[ CITI ]