Elmanismo e Filintismo
Quando Filinto Elísio, do seu exílio em Paris, após fuga ao Tribunal da Inquisição, louvava Bocage em termos entusiásticos e o considerava herdeiro da sua glória poética, ou quando Bocage respondia com exultante orgulho a esses louvores e os recebia como suprema consagração, estavam ambos bem longe de supor que o seu magistério daria origem a duas correntes divergentes e opostas dentro da poesia portuguesa, o que não significa que elmanistas e filintistas tenham sido em algum momento grupos rivais.
Na base deste binómio estão, sim, dois modos diferentes de expressão poética, que vieram a afectar ao longo das gerações a matéria verbal e os arranjos métricos e frásicos. Os mesmos ideais humanos e, em certa medida, também os mesmos ideais literários alimentavam a veia dos dois mestres; o que os separava profundamente era pura questão de estilo.
Como homens e como artistas, Bocage e Filinto eram tão diferentes que as obras respectivas haviam forçosamente que acusar um tom bem distinto. Não se deve esquecer que Bocage foi um poeta jovem, enquanto Filinto foi um poeta da maturidade, só começando uma verdadeira obra com cerca de 40 anos.
Filinto bateu-se pelo verso branco; Bocage rimou com tacilidade e fluência. O primeiro imitou a estrutura de frase latina e acumulou de estranhos latinismos o seu vocabulário que queria vernáculo, livre de estrangeirismos, enobrecido por vocábulos esquecidos que introduziu em frases eruditas.
Bocage, pelo contrário, cingiu-se a um vocabulário não muito rico, não se aplicando deliberadamente a inovar ou a reformar a língua. Às galas clássicas que Filinto prezava, Bocage preferiu as tradicionais antíteses, o jogo das rimas, as hipérboles e as simetrias.
Mas as diferenças não são apenas de natureza exterior e formal. Filinto representa a energia, a rudeza e alguma ausência de harmonia, enquanto Elmano Sadino, como se intitulava Bocage, é a brandura, a fluência com a qual ainda hoje nos deleitamos, o humor variado, as alternativas de soturnidade e de fantasia tão ao gosto do poeta pré-romântico.
Bocage, muito mais lírico e apaixonado, muito mais poeta, afinal, idealizando sempre e sublimando os dados da realidade e do seu próprio Eu, projectando-os num plano de transcendência, ampliando-os ao nível dos mais fundamentais anseios da alma humana.
Daí que, depois de levantado o "vendaval Romântico", ninguém mais tenha sido filintista... Já Bocage resistiu aos séculos e transpôs, como sonhava, os desígnios do destino, ultrapassando os umbrais radiosos da fama!
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