A época
David Mourão Ferreira, um dos grandes estudiosos de Bocage, refere que o maior drama do poeta, "o mais pungente", foi o de ter vivido em tempo que não lhe convinha.
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De facto, em meados do século XVIII, os espíritos mais evoluídos sentiam já a necessidade urgente de uma transformação radical na vida portuguesa. O ensino continuava confiado aos Jesuítas, que o sujeitavam a um profundo marasmo, enquanto a Inquisição ainda dotada de grandes poderes travava a entrada às ideias novas vindas de França. O país estava, assim, condenado a um isolamento estéril. Alguns vultos conseguem dar algum contributo para o desejado processo de dinâmica renovadora; mas à data da vida de Bocage, e atrás de uma fachada de austeridade, escondia-se uma sociedade mesquinha, corrupta e indiferente aos acontecimentos que agitavam o mundo. Lord William Beckford, um nobre inglês que viveu alguns anos no nosso país nessa data, deixou nas suas cartas cheias de ironia e de espírito crítico, o retrato fiel dos hábitos, das futilidades e das pequenas loucuras da corte de D.Maria I. Se por um lado Pina Manique procurava afastar os espíritos de qualquer preocupação política, por outro, as notícias de novos ares revolucionários conseguiam chegar de França e alimentavam, de algum modo, as esperanças dos que ansiavam pela libertação dos símbolos tradicionais. |
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D.Maria I e D.Pedro (Museu dos Coches). O aniversário da rainha celebra-o Bocage em versos recitados em 17 de Dezembro de 1799. |
O século XVIII tem sido sempre considerado como uma época de crise em que se cruzaram, opuseram ou coexistiram diferentes estéticas e rumos de vida. A obra de Bocage reflectiu todos estes aspectos e a sua faceta crítica não deixou de incidir sobre alguns deles. Por outro lado, e quase como fuga a esses tempos medíocres o poeta partiu à descoberta da sua própria interioridade, revelando-nos o seu Eu em todos os seus desejos e fraquezas. |
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