O Eu

O peito de Bocage sempre andou a transbordar de amor tempestuoso, de orgulhos desmedidos, de paixões vulcânicas e ele manifestou-as de modo tumultuoso, quase histérico. Continuamente se debruça sobre o seu Eu num devassar dos movimentos mais íntimos da sua alma. Frequentemente se sente que estes sentimentos o torturam até ao desespero, agitando-se freneticamente entre os sentimentos antagónicos do prazer e da culpa.

No mais íntimo do seu ser encontra-se sempre patente o conflito entre a razão e a sua alma de poeta, a luta profundamente sentida pelo egotista que se descobre em confissão sincera no soneto:

Meu ser evaporei na lida insana

Do tropel de paixões que me arrastava;

Ah! Cego eu cria, ah! mísero eu sonhava

Em mim quase imortal a essência humana.

Quando toma consciência da sua caducidade Bocage é levado ao arrependimento.

Há momentos em que Bocage sentiu antecipadamente que a vida que tinha vivido mais não fora que uma bola de sabão, não pela beleza que, tantas vezes, deixa descobrir, mas mais pela fragilidade com que num instante se esvaiu.

Desse sentido do efémero deriva talvez a necessidade premente de analisar o seu Eu e de tantas vezes fazer o seu auto-retrato ou referir os seus próprios sentimentos numa espécie de narcisismo.

[ CITI ]