O Complexo de Jonas

O complexo de Jonas consiste no esquema psicológico da atracção pelo abismo "devorador" e a aspiração por um resgate luminoso, uma saída para uma vida de "outro sol de luz mais pura".

Bocage viveu o seu tempo com angústia e dirigiu a sua imaginação ansiosa ao apelo à morte e ao sepulcro, como uma espécie de exorcismo do monstro que sentia em si. Tendo sofrido pelo menos dois traumatismos psicológicos que nesse sentido o influenciaram (a morte da mãe e a infidelidade de Gertrudes) podem nesses factos situar-se a atracção e a vertigem da queda no abismo: o orfão sedento de amparo e carinho, aconchego que nunca veio a encontrar nas múltiplas paixões que estabeleceu ao longo da sua vida e situa no centro das suas imagens de poeta lírico os símbolos da vertigem, da sombra e do abismo, da descida aos infernos, como um modo de regresso ao seio materno, como uma forma de libertação e de um despertar luminoso.

(...) À cova escura

Meu estro vai parar desfeito em vento...

Eu aos céus ultrajei! O meu tormento

Leve me torne sempre a Terra dura.

O verso "Saiba morrer o que viveu não soube" é um verso-chave na sua obra e na sua vida já que Bocage, perpétuo desadaptado não soube viver, sempre atraído pelo lúgubre e pelo funesto vendo sempre diante de si o abismo que o atraía e o aterrava num apelo pré-romântico pelo sepulcro que julgava poder restituir-lhe uma claridade serena.

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