Liberdade

De regresso da sua malograda viagem ao Oriente, Bocage veio encontrar em 1790 uma Lisboa irreconhecível, excitada com os rumores revolucionários que chegavam de França. Habitualmente adormecida, suja e apática, o capital parecia agora criar novo ânimo e ambiente próprio para a discussão dos acontecimentos que lá por fora se iam desenrolando. Simultaneamente conhecia a emoção da clandestinidade, ao inteirar-se desses sucessos através de todas as publicações francesas que subrepticiamente se iam introduzindo no nosso país.

Era natural que o temperamento do jovem poeta se sentisse fascinado pela oportunidade de lutar contra o despotismo e que o seduzisse o espírito tolerante da liberdade tão apregoada pela Revolução Francesa. Bocage, de facto, vibrou com a Declaração dos Direitos do Homem, venerou Rousseau e cantou com profunda convicção as lutas napoleónicas, ridicularizando o poder papal.

O rápido francês vai-lhe às canelas;

Dá, fere, mata; ... ficam-lhe em despojo

Tiaras, mitras, burlas, bagatelas.

No entanto, as circunstâncias trágicas que envolveram a morte de Maria Antonieta quase o fizeram esquecer esse seu profundo apreço à liberdade e compôs uma elegia à rainha de França brandando contra o "sacrílego atentado" contra a própria liberdade que tão ferozmente defendia.

Talvez se encontre na sua profunda inadaptação à sociedade mesquinha e limitada que lhe não reconhecia o talento, a razão que o conduziu ao apreço tão profundo pela lufada de ar fresco que representavam as ideias vanguardistas de desafio à cultura tradicional encerrada em convenções retrógradas.

Mas, o culto que dedicava à liberdade, não foi nunca convertido em verdadeira acção militante, provavelmente devido à sua indole inconstante. Daí, o ter-se confinado a uma certa rebelião, amargurada mas passiva, contra a injustiça da sociedade em que vivia.

Empunhando a sua arma mais forte - a palavra - manifestou-se a seu modo contra a ideologia política e religiosa da sua época, o que lhe valeu a prisão de onde soltou o seu grito amargurado:

Liberdade, querida e suspirada

Que o despotismo acérrimo condena

[ CITI ]