O poeta lírico

É sem dúvida nos sonetos que Bocage se consegue verdadeiramente libertar dos esquemas rígidos das estruturas arcádicas e dá livre expansão aos seus sentimentos e às suas inquietudes, demonstrando a verdadeira dimensão do seu talento.

Neles se retrata o seu drama poético que nunca se pode dissociar do seu drama pessoal - como todos os seus críticos reconhecem, a sua obra, mais do que em qualquer outro poeta, é na realidade o reflexo profundo de uma vida com todas as grandes grandezas, misérias, esperanças e desajustes.

Sentimentos desmedidos transformam-se em matéria poética onde perpassa a natural indisciplina do poeta, fonte de uma permanente irritabilidade e orgulho desmedido e pressente-se a sua inconstância amorosa exacerbada por um temperamento impulsivo e inclinado a um ciúme delirante.

Manifestando como preocupação dominante a revelação das dimensões mais profundas do seu Eu poético torna-se impossível não fazer a comparação de Bocage com Camões, referência aliás que o próprio Bocage faz:

Camões, grande Camões, quão semelhante

Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!

Igual causa nos fez, perdendo o Tejo,

Arrostar co'o sacrílego gigante.

Na procura da Beleza em si mesmo Bocage desvelou-se em arquitectar uma lírica em que o material utilizado - a palavra - foi trabalhada em obediência a uma ordem geométrica determinada, lógica, expressiva e rica em simetrias e antíteses:

Marília, nos teus olhos buliçosos

Os Amores gentis seu facho acendem;

A teus lábios, voando, os ares fendem

Terníssimos desejos sequiosos.

Estas suas facetas de profunda sensibilidade, de permanente conflito interior e desmesurada fome de grandeza estão na base do modo de expressão poética designado por Elmanismo, que vai afectar gerações futuras; oposto, em alguns sentidos, à disciplina rígida da imitação dos clássicos do chamado Filintismo.

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