Obra

Um facto indiscutível acerca de Bocage é que a lembrança que de si ficou no homem comum, a imagem que lhe sobreviveu pelas gerações fora, reporta-se mais ao anedotismo caricatural de um Bocage de pilhérias e chalaças, a quem se atribui tudo menos a grande obra poética que escreveu.

Trata-se de uma injustiça, pois Bocage foi um dos mais sérios e complexos poetas de toda a nossa história literária, o que é tanto mais de ressaltar quanto é certo que a situação histórico-social e estética em que viveu não foi das mais privilegiadas e até, pode-se mesmo afirmar, foi bem ingrata.

Em Bocage confluíram os efeitos sucedâneos de duas tendências literárias que em certos aspectos se podem considerar como perfeitamente antagónicas: um Academismo em agonia (donde o Bocage neoclássico provém) e um Romantismo em embrião (daí o seu aspecto pré-romântico). Se Bocage já não foi um clássico, no sentido mais verdadeiro da palavra, também não chegou a ser um verdadeiro romântico. Ou foi isso e muito mais; outro menos vocacionado que ele nunca teria sabido conjugar, sem trair génio e autenticidade, os temas pré-românticos e a forma da teoria arcádica.

Dada a sua vida de boémia e dispersão não se pode considerar que a obra deixada por Bocage seja pobre. Em 1804, ano imediatamente anterior ao da sua morte, publicou o seu III volume das Rimas. Os anteriores saíram mais de uma vez à luz.

Bocage era, na verdade, considerado o maior poeta da sua época e consequentemente o mais lido. Trabalhou como tradutor e escreveu em todos os géneros literários em voga no seu tempo - idílios, odes, canções, epístolas, epigramas, fábulas - em todas elas, demonstrando a mesma excepcional qualidade de estilo, inexcedível na adequação e no apuro do vocabulário, na fluência da dicção, na sedução melódica, sempre compatíveis com um extraordinário vigor expressivo.

Em especial nos sonetos surgem composições de tipos completamente diferentes: eróticos, morais e devotos, heróicos e gratulatórios, joviais, libertinos e satíricos e ainda filosóficos.

Autógrafo de Bocage, exististe na Biblioteca Municipal de Évora.

 

Incapaz de encontrar uma forma nova que melhor correspondesse à novidade dos seus sentimentos, Bocage permaneceu um típico produto de transição. Citando as palavras de David Mourão Ferreira: " Com um pé nos degraus da Arcádia, com o outro suspenso ante os abismos enigmáticos do futuro, a sua posição de tão instável, tão depressa nos comove como logo nos impacienta".

Duas vertentes principais ressaltam na sua obra poética: o satírico e o lírico. Hoje, devidamente julgado no seu valor, aprecia-se mais este último; mas na sua época e por muito tempo o Bocage que andava na boca do povo era o Bocage repentista e das sátiras mordazes.

As principais características da sua obra e o espírito anárquico, livre e vivo, justificam a escola literária que a sua poética originou - o chamado Elmanismo, por oposição à rígida disciplina e à fria imitação clássica do Filintismo.

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