O Pré-Romântico

A "vontade de Romantismo" não era em Bocage uma verdadeira atitude literária mas provinha muito mais de uma sensibilidade exacerbada pelo sofrimento.

Esse foi, como o reconhecem muitos dos seus críticos, o seu maior drama: viveu num tempo que não lhe era adequado, uma época de poesia medíocre, um tempo em que o seu fado de ser poeta foi terrivelmente condicionado por exigências sociais hipócritas a que, não poucas vezes, Bocage teve de transgredir.

Frequentemente a força dos seus sentimentos faz estalar a crosta das convenções e então o poeta revela efectivamente alguns traços em comum com o gosto romântico: a aguda consciência do Eu, a perseguição se um destino infeliz, a submissão total ao Amor, quase divinizado e muitas vezes oposto à razão, uma veemência fremente dos sentimentos, um pendor nocturno, fúnebre, por vezes quase necrófilo.

Estes aspectos gerais reflectem-se em traços particulares associados ao sujeito que trazem as marcas de um gosto novo: o prazer da solidão, das paisagens sombrias, a confiança em profecias e agouros, que se traduzem num profundo egotismo, e uma inadaptação em relação ao ambiente em que viveu.

Tal inadaptação palpita em toda a sua obra, cujos temas reflectem em síntese:

- uma forte indisciplina moral - "Miseranda Inocência, és nome abstracto";

- um amor frenético e desesperado - "Quantas vezes, Amor, me tens ferido!";

- e a obsessão da morte - "A morte para os tristes é ventura".

A lua e noite - aquela como símbolo do fado, esta como símbolo do silêncio e da escuridão da própria morte - são caras ao Bocage pré-romântico ("Ó retrato da morte! Ó Noite amiga, Por cuja escuridão suspiro há tanto!"). Quadro de Fernando Santos existente no Café Nicola em Lisboa.

 

É pois, no conteúdo, muito mais do que na forma, que Bocage deixa entrever na sua obra um substrato verdadeiramente romântico, que aflora frequentemente à superfície da maioria das suas composições.

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