O poeta satírico

A veia satírica de Bocage documenta bem uma característica dominante de toda a produção literária da sua época e já pertencente em certos aspectos à nossa tradição (a poesia trovadoresca, a sátira do Cancioneiro Geral, o Teatro de Gil Vicente).

A grande diferença reside no facto de a sátira de Bocage não ser impessoal, nem genérica, nem zombeteira, mas sim extremamente contundente, cáustica, grosseira, feita de sarcasmo e ditada por um amor-próprio ferido, incapaz de perdoar, por um temperamento que, talvez a sua própria vida consiga de algum modo explicar.

Frequentemente dirige a sua sátira contra os membros da Nova Arcádia:

"Vós, ó Franças, Semedos, Quintanilhas,Macedos, e outras pestes condenadas; (...)" e ainda "Não tendo que fazer, Apolo um dia/Às musas disse: "Irmãs, é benefício/ Vadios empregar; demos ofício/Aos sócios vãos da magra Academia."

Igualmente inúmeros aspectos sociais da sua época não escapam à sua crítica mordaz. É neste sentido deformador, mas revelador do seu egocentrismo, que traça de si mesmo um retrato físico e moral, que nada tem de lisonjeiro. "Magro, de olhos azuis, carão moreno/ Bem servido de pés, meão de altura/ Triste de facha, o mesmo de figura/ Nariz alto no meio e não pequeno."

Escritores, frades, mulheres esquivas, senhores todo-poderosos, nada escapa à crítica ou maledicência de Bocage. Mas, satisfeito o seu humor satírico, o poeta como que se doía da veia repentista que por vezes o tornava injusto. Daí que, recobrada a lucidez, o poeta se lamente e exclame: "Cala a boca, satírico poeta, Não te metas no rol de maledizeres." Mas, re-acesas as paixões, Bocage voltava a cair nos excessos de que depois se queixava.

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