Vida

Bocage nasceu em Setúbal a 15 de Setembro de 1765. À família, apesar de apenas remediada, não faltava distinção social e intelectual e o poeta ao longo da sua vida não se vai esquecer de ostentar os seus títulos de orgulho familiar, lembrando o seu parentesco francês.

Precocemente mostra já tendências literárias como recorda numa das suas poesias: "Versos balbuciei co'a voz da infância"

 

Setúbal, berço do poeta, vista por G. Landmann, gravura de J.C. Stadler.

Cedo foi o jovem marcado pela adversidade quando aos dez anos lhe morre a mãe. O resto da sua infância foi vivida em companhia dos irmãos, tutelado pelo pai, em contacto com a boa sociedade de Setúbal. Assim se ia compondo a sua intimidade melancólica que o acompanharia ao longo dos anos.

A casa onde nasceu Bocage, segundo uma aguarela de Alberto de Sousa existente na Câmara Municipal de Setúbal. O poeta, maltratado pela miséria, nasceu numa família da alta burguesia.

 

A família frequentava a casa do governador do Outão e Bocage acaba por se apaixonar por uma das meninas da família, de nome Gertrudes, a Gertrúria a quem Bocage, em alguns dos seus versos, faz referência.

O poeta já dava sinais do que havia de ser. A sua natureza inquieta e talvez conveniências de família levam-no a abandonar os estudos e a assentar praça no regimento de Setúbal com apenas 16 anos. Aí permaneceu até 1783, data em que ingressou na Escola da Armada:

Bocage relata-nos estes anos da sua vida nos versos:

Aos dois lustros, a morte devorante

Me roubou terna mãe, teu doce agrado;

Segui Marte depois, e enfim meu fado

Dos irmãos, e do pai me pôs distante.

Conhece então a boémia lisboeta e perde-se numa vida desregrada. Em 1786 consegue a patente de guarda-marinha e parte para a Índia embarcado no "Senhora da Vida". O navio fez escala no Rio, onde Bocage conheceu o novo governador da Índia que com ele simpatizou e o apresentou à sociedade brasileira, frequentando banquetes e festas.

Imagem do Rio de Janeiro, em princípios do séc.XIX. Tranquila cidade colonial ainda no tempo de Bocage, que aí aportou quando se dirigia ao Oriente.

 

 

A estas breves delícias iam suceder cerca de dois anos de trabalhos na Índia de onde segue para Macau. Ao regressar ao reino encontra Gertrudes já casada com um seu irmão o que muito o abate confirmando-se as tristes previsões que fizera:

Por bárbaros sertões gemi, vagante:

Falta-me ainda o pior; falta-me agora

ver Gertrúria nos braços de outro amante.

Este facto, aliado à morte prematura da mãe, terá provavelmente influído profundamente na formação do que os críticos chamam "Complexo de Jonas", que é esquema fundamental na imaginação do poeta.

Em Lisboa, sem ocupação fixa, leva uma vida de boémia, pelos botequins, enquanto fazia parte da Nova Arcádia com o sobrenome académico de Elmano Sadino e ganhou fama atingindo os outros membros da Academia com os seus versos mordazes.

Vai construindo toda a sua obra a par de uma vida livre. Os seus costumes dissolutos, as suas composições, sarcásticas umas, outras inspiradas pelo livre pensamento, acabam por levar o intendente Pina Manique a colocá-lo sob prisão e o próprio Santo Ofício a interná-lo no Colégio do Oratório para uma espécie de "cura espiritual". Aí esteve recluso durante dois anos dedicando-se ao trabalho de tradutor.

Saído do Oratório, moralmente recuperado, tentou uma vida diferente, tomando a seu cargo a protecção de uma irmã, mas os excessos anteriores, a bebida, o fumo e a doença reduzem-no a um farrapo.

São dessa sua última fase de profundo sofrimento os seus sonetos inspirados pela contrição dos erros da sua vida passada:

Meu ser evaporei na lida insana .../ Saiba morrer o que viver não soube

Nesses seus últimos anos teve o grato consolo de ver amigos e rivais junto de si, incluindo alguns dos velhos companheiros da Nova Arcádia, que ele tanto injuriava, todos irmanados por um mesmo sentimento de consideração e piedade. Curvo Semedo e Agostinho Macedo (o "Belmiro Transtagano" e o "Elgino Tagideu" que ele tão impiedosamente cobrira de sarcasmos) não faltaram nesse apoio, levando-lhe palavras de admiração, tentando suavizar-lhe um pouco esses momentos amargos.

Morreu de um aneurisma a 2 de Dezembro de 1805 no 4º andar do prédio hoje com o nº25 e placa comemorativa na Trav. de André Valente.

  Fachada da Casa onde o poeta morreu, na Travessa de André Valente, em Lisboa. Exausto por uma vida agitada, Bocage ali viveu os últimos tempos, regenerado pelo trabalho, purificado pelo sofrimento, confortado por amigos e admiradores, reconciliado até com velhos inimigos.

Estava assim terminada a aventura que dera a Bocage a oportunidade de se comparar a Camões:

Camões, grande Camões! quão semelhante

Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!

Igual causa nos fez, perdendo o Tejo,

Arrostar co'o sacrílego gigante.

[ CITI ]