Charneca em Flor
Enche o meu peito, num encanto mago,
O frémito das coisas dolorosas
Sob as urzes queimadas nascem rosas
Nos meus olhos as lágrimas apago
Anseio! Asas abertas! O que trago
Em mim? Eu oiço bocas silenciosas
Murmurar-me as palavras misteriosas
Que perturbam meu ser como um afago!
E, nesta febre ansiosa que me invade,
Dispo a minha mortalha, o meu burel,
E, já não sou, Amor, Soror Saudade
Olhos a arder em êxtases de amor,
Boca a saber a sol, a fruto, a mel:
Sou a charneca rude a abrir em flor!
(Florbela Espanca, «Charneca em Flor», in «Poesia Completa»)
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