Charneca em Flor

Depois de uma paragem de quatro anos, de 1924 a 1928, em que não escreve nenhum soneto, Florbela regressa à poesia em 1929, escrevendo «Minha Terra», acerca de Vila Viçosa, que Guido Battelli posteriormente publicará com o título «Pobre de Cristo», e «Évora». A produção poética tem seguimento em 1930, quando Florbela, a par do «Diário do Último Ano» que começa a escrever, inicia a sua colaboração com a revista «Portugal Feminino» e continua a publicar sonetos na revista «Civilização». Após uma visita do irmão, Apeles, Florbela ganha forças para dar início a «Charneca em Flor», a obra-prima que nunca verá publicada.

Quando, a 10 de Julho, Guido Battelli (com quem entretanto iniciou correspondência) se oferece para publicar «Charneca em Flor», Florbela fica radiante. Estranhamente ou não, a poetisa sente uma enorme pressa de ver o livro publicado e, em Dezembro, ao rever as provas, pressente que não o chegará a ver publicado, o que poderá ter a ver com o seu suicídio.

Finalmente, nos primeiros dias de Janeiro, cerca de um mês depois do desaparecimento da poesia, «Charneca em Flor» conhece a luz do dia. Possivelmente, era, para Florbela, um livro de recordações, em que queria registar as melhores lembranças da vida. Trata-se, sem dúvida, do livro em que Florbela melhor enfrenta a sua totalidade humana, ou seja, é aquele em que melhor consegue condensar as suas vivências, passando-as à poesia como nunca o fizera antes. É em «Charneca em Flor» que melhor se define a sua sensibilidade, apresentada de modo complexo e intenso. Considerado como o seu livro mais sincero, é nele que Florbela retrata a fase mais difícil e pessoal da sua vivência como poetisa, e presta homenagem à sua terra natal. Segundo Antero de Figueiredo, o livro «Charneca em Flor» ficará como um dos mais belos depoimentos literários do coração português de ontem, de hoje, de todos os tempos («Revista Alentejana»). Intensa, insatisfeita, amarga, exaltada, sensual e mística (João Gaspar Simões, «História da Poesia Portuguesa do Século XX») ao mesmo tempo, Florbela dá o melhor de si, distanciando-se das restantes poetisas. Definitivamente, Florbela contribui em «Charneca em Flor» para a emancipação literária da mulher e ousa levar ainda mais longe o erotismo no feminino, como o mostra «Volúpia». Dá, por tudo isso, vida a sonetos tão raros como «Charneca em Flor», «Outonal», «Ser Poeta» e «Amar!».

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