A condição feminina
A sua condição de mulher foi um enorme impedimento ao desempenho de Florbela. Num tempo em que apenas algumas liberdades começam a ser reconhecidas às mulheres, Florbela teve de enfrentar um mundo dominado por homens, que mostrava muito pouca permeabilidade às mulheres que se destacavam, por exemplo nas artes ou na literatura. A revolta contra a condição secundária em que as mulheres do seu tempo eram colocadas revolta-a frequentemente e, em cartas à sua amiga Júlia Alves, com quem troca regularmente correspondência sem nunca a chegar a conhecer, acaba por reconhecer que se sente presa no casamento, um sintoma de que, de facto, Florbela nasceu numa época que não era a sua, regida por normas a que dificilmente a poetisa se conseguiu adaptar.
Segundo palavras da própria, sentia-se uma mulher sensitiva, totalmente desligada das mulheres animais, que se consideravam apenas fêmeas, satisfazendo-se com a posse. É por isso que achava que nenhum homem merecia o sacrifício da sua liberdade, e é também por isso que a moral tradicional, atribuindo às mulheres uma participação mínima na sociedade, era incompatível com a sua maneira de pensar, favorável à emancipação feminina (José Mattoso, «História de Portugal»).
Por outro lado, o modo como se referiu, na sua obra, à condição feminina é a verdadeira chave que abre a Florbela o caminho para a glória literária: Florbela entra para o templo dos escritores clássicos através de um espaço literário independente, cujo emblema é a sua própria condição feminina (Rui Guedes, «Acerca de Florbela»).
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