O erotismo em Florbela
Principal causa das críticas que lhe dirigiram os seus contemporâneos (mesmo depois do seu desaparecimento, como o fez José Augusto Alegria), o erotismo dominado pelo feminino é um dos traços mais inovadores e importantes da poética de Florbela.
Florbela aspira a um estado ilimitado, definido, simbolicamente, pelo desejo sexual, o que faz com que alguns dos símbolos que percorrem a sua obra tenham claras conotações eróticas. Como Florbela não se submete às leis impostas aos sentidos, a sua poesia refere a lei das sensações (Agustina Bessa Luís, «A Vida e a Obra de Florbela Espanca»). Ao mesmo tempo, assiste-se a uma espiritualização do erotismo e à conversão de uma senhora, que, simultaneamente, reprime o erotismo, mas não lhe consegue resistir. Segundo Agustina Bessa Luís, Florbela pode querer exprimir um estado de identificação com o objecto de desejo, sendo o seu último espelho erótico a morte (Agustina Bessa Luís, «A Vida e a Obra de Florbela Espanca»).
Marcada de um forte ímpeto passional, a obra de Florbela acentua um certo «donjuanismo» (talvez herdado do pai) transposto para o feminino, que faz parte desse erotismo que contagia o sujeito poético. Em «Trocando Olhares», Florbela dá o primeiro passo rumo à livre abordagem da intimidade feminina e à acentuação do erotismo, não se tratando, porém, do erotismo tradicional: Florbela subverte o erotismo tradicional, dominado pelo masculino, revelando, progresssivamente uma pulsão erótica, em que o eu feminino da poetisa se afirma. Essa gradual afirmação do eu feminino culmina com a exaltação da beleza e das capacidades de sedução exercidas pela mulher.
Para conseguir que o erotismo feminino penetre num mundo dominado por homens, Florbela identifica-se com um mito poético, o Anto, que dá, aliás, nome a um dos seus poemas: «A Anto!».
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